terça-feira, 26 de dezembro de 2006
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domingo, 24 de dezembro de 2006
Infortúnios de centroavante apaixonado
Faz três semanas que nós brigamos, que você falou aquele monte de coisas e disse que não queria mais nada comigo. Não é a melhor hora pra te dizer que você é tão importante pra mim quanto jogar bola. Mas foi a única maneira que encontrei de te mostrar o quanto gosto de você. Não! Não pára de ler agora! Eu estou sendo sincero e esta talvez seja a última esperança de te ter ao meu lado de novo. E não é importante só pra mim.
Querida, faz duas semanas que eu passo em branco. A bola chega limpa e eu perco o gol como nunca perdia. Acredita que errei um pênalti no sábado? Um pênalti, minha linda! Você, que me viu bater tantos pênaltis, também não deve estar acreditando. E sabe de quem é a culpa disso? É sua. Tá, não é só sua. Eu tive culpa também, eu dei motivo pra gente brigar, eu chutei em cima do goleiro. Mas o que eu quero dizer é que isso vem acontecendo desde que brigamos.
Tá, você deve estar se perguntando o que tem a ver com essa falta de pontaria que apareceu na minha vida de repente. Tudo. Sabe o que é entrar em campo sabendo que você não está na arquibancada, torcendo por mim? Não consigo me concentrar. Jogo pensando numa forma te de convencer a voltar, sem ter idéia de como fazer isso. Aí não consigo dominar uma bola, acertar um passe, fazer um golzinho sequer.
Você acha que tô exagerando, né meu bem. Não. Pra você ter idéia, num lance o Veco driblou dois no meio do campo e me passou uma bola perfeita. Recebi e fiquei sozinho com o goleiro. Só tinha que chutar e correr pra comemorar, mas pensei em você. Tem cabimento, meu anjo? Só eu, o goleiro, a bola, o chute armado... e eu pensando em você? Não podia dar outra: quando percebi o goleiro tava em cima de mim, agarrando a bola. Eu não chutei, perdi o gol mais feito da história. A torcida me vaiou e tudo. Não agüentei, pedi pra sair.
O seu Moreira já disse que entende os meus problemas, mas que se eu continuar assim, vai ter que botar outro no meu lugar. Aí eu fico sem você e sem gols no final de semana. Como que eu fico? Por favor, Sandrinha, volta pra mim. Preciso de você muito mais do que imaginava. Faço tudo que você quiser, mas volta. E volta logo. Pra alegria minha e de toda o torcida do Trindadense, o glorioso time do bairro da Trindade. Te amo, Adamastor.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Consolação
Esperava o amigo no metrô Consolação há mais de vinte minutos. Não ajudava nada o fato de ter chegado vinte minutos antes da hora marcada, só aumentava a ansiedade. Todo final de semana aquela história de esperar alguém na catraca do metrô se repetia. Talvez fosse hora de inventar outros pontos de encontro, mas era tão simples que acabava marcando ali mesmo quando nem vinha de metrô. Perto dele uma menina também esperava. Ele se interessou porque era uma daquelas roqueirinhas moderninhas, no mesmo estilo que ele via no Atari ou no Dj Club. Não achava grande coisa no estilo, mas gostava de olhar. E era bonitinha também – além de fazer exatamente a mesma cara de "saco cheio de esperar" que ele também fazia desde que chegou à estação.
Aquela rotina de ouvir o metrô chegar e ficar olhando pra escada rolante estava ficando insuportável. Via a menina e ela também parecia impaciente. Pensou em ir falar com ela, puxar assunto. Aquela coincidência de esperar e a meia-dúzia de olhares trocados poderiam ter criado alguma espécie de intimidade. Seria fácil... três passos, um "oi". E depois? Não estava mais acostumado a conhecer gente, principalmente assim, sóbrio desse jeito. O que diria? "Oi... você sempre espera as pessoas aqui no metrô?". Cretino. Se cretinice pagasse imposto, ele teria problemas. Pelo menos era nisso que pensava e já tinha certeza de que não falaria nada para a menina. Estava até começando a olhar menos.
Olhou para o relógio da estação. O amigo já estava quinze minutos atrasado. Maldito. Assim chegariam atrasados ao show. Olhou pra menina de novo e tentou disfarçar quando percebeu que ela também olhava. Pensou em escrever uma história sobre um casal que se conhecia no metrô, depois de uma hora esperando alguém que não apareceu. Talvez ficasse bacana. Mas ele não conseguia imaginar uma forma verossímil de começar um diálogo entre duas pessoas que não se conhecem e estão esperando alguém numa estação de metrô. Tudo parecia cretino ou óbvio demais. Aliás, se ele soubesse o que poderia ser dito, não guardaria pra escrever em casa. Foi quando olhou para ela mais uma vez e a viu chegando mais perto para falar.
- Você tá esperando sua namorada?
"Ela veio, ela falou, responde rápido."
- Não! Não... eu estou esperando um amigo. E você? Esperando namorado?
- Não... quer dizer... eu estou esperando minha namorada.
"Namorada? Ela é bem Atari mesmo. Eu devia ter imaginado. Seja natural, seja natural."
- Ah... bacana. Tá esperando há muito tempo?
- Quase uma hora. Tô começando a achar que ela não vem.
- Ah, vem sim. Eu tô esperando há uns 40 minutos... mas nem posso reclamar muito, cheguei 20 minutos antes.
- Pra onde vocês vão?
- A gente vai dar uma passadinha num lugar onde um amigo meu ta botando som e depois vai pra um show e você?
- Ah... num bar na Augusta. Tão esperando a gente lá.
- Legal...
A conversa continua. Falam de nomes, lugares, gostos, da chatice que é esperar no metrô. Só interrompem quando chega um trem e com ele a expectativa de que surjam as pessoas que esperam. Apesar de que agora ele torce para que ambos levem um bolo e possam terminar de se conhecer em outro lugar. Um lugar onde se possa sentar e beber, de preferência. Até que a menina interrompe a conversa pra dizer "é ela!". Vai até a catraca, abraça e beija a outra, falam alguma coisa. Volta.
- Foi um prazer.
- Foi sim.
Sorrisos, beijos no rosto, nenhum contato trocado. Elas vão embora de mãos dadas e ele continua a espera pelo amigo cretino atrasado. Mas pelo menos já sabia como começar o diálogo entre os dois personagens que se conhecem no metrô...
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
Carona
Ele não dava caronas.
Se lhe perguntassem o motivo, malcriadamente, responderia que não dava porque não pedia. E riria sozinho. Na verdade, nunca pensara muito a respeito. Talvez fosse por medo (“como vou enfiar um desconhecido dentro do meu carro assim, sem mais nem menos?”) ou até mesmo um certo escárnio debochado para com aqueles caroneiros vagabundos segurando plaquinhas com nomes de praias. Provavelmente eram esses os motivos.
E eles vieram à sua cabeça no momento em que viu o polegar estendido da moça na beira da estrada.
Estendido como vira em tantas outras vezes e não dera bola. A diferença é que ao mesmo tempo lembrou o quanto se sentira sozinho nos últimos dias e de como quisera uma conversa à toa e não conseguira. Talvez fosse interessante dar a carona para aquela mulher bonita que não carregava uma mochila nas costas e nem usava uma bata indiana.
Sim, todos esses prós, contras e ponderações passaram pela cabeça dele nos poucos segundos que decorreram do instante em que viu o polegar erguido até o ato de fazer o carro parar. Se lhe perguntarem mais tarde porque decidiu parar, vai dizer que foi impulso, instinto, ou qualquer outra desculpa que se dê para essas decisões tomadas de uma vez só, em pouquíssimo tempo. E que, na verdade, são as mais racionais de todas.
- Pra onde você vai?
- Ah, eu vou pra universidade... mas se você me tirar daqui já tá valendo.
- Entra aí – disse, fingindo certo desdém, como se desse caronas o tempo todo, como se não tivesse achado graça no que ela disse.
- E pra onde você vai?
- Eu? Ia pro centro... agora vou pra universidade.
- Não precisa mudar seu caminho, me deixa na...
- Não, não... sem problemas. Tô adiantado demais, não quero chegar cedo no trabalho.
- Ah... se você não se importa... depender de ônibus aqui é o inferno.
- Eu lembro... ô se lembro...
- O que você faz?
- Sou jornalista... e você?
- Estudo design e faço estágio numa agência bem legal lá no centro, não sei se você conhece, a...
- Você vai ficar ofendida se eu disser que tinha certeza de que você estudava design?
- Como assim?
- Ah, você tem cara de designer...
- É? E você tem cara de jornalista também...
- Sério? Como é cara de jornalista?
- Cara cansada, olheiras e barba por fazer. Aposto que você tem cinco anos menos do que aparenta.
- Gostei de você – disse rindo – tenho 28.
- Como eu imaginava – riu também.
- Você sempre diz o que te passa na cabeça?
- Bom, você começou...
- É... talvez.
- Eu tenho 20.
- Como eu imaginava...
Sorriram um para o outro. Ela viu um porta-cd, pegou e começou a procurar algum.
- Claro que me importo... mas fique à vontade.
- Que ótimo... adoro esse aqui.
- Você não é nem um pouco tímida, né?
- Claro que sou... mas não tanto quanto você – riu mais uma vez.
- Dá pra perceber tanto assim?
- Arrã...
- Eu nunca tinha dado carona pra ninguém...
- Sério?! E porque resolveu parar o carro pra mim?
- Sei lá... impulso...
- Sei... e deu carona logo pra uma folgada que te tirou do caminho e fica mexendo nos teus cds.
- É, deve ser meu dia de sorte.