Tem aquele dia em que acaba todo o dinheiro e o calendário ainda marca 17, mas a pessoa pensa que não precisa se preocupar com o almoço porque sobrou do jantar, para logo descobrir que a sobra é pouca, comer e não satisfeita ir para o trabalho, onde o dia não vai render, as situações vão continuar indefinidas e ela vai enrolar até o relógio marcar 18, daquele dia 17, e ela perceber que é bom fazer alguma coisa antes que outros vejam que, afinal, não faz tanta diferença assim lá dentro, pois então faz, e quando se vê livre descobre no fundo da gaveta um tesouro perdido de moedas que podem garantir um jantar mais agradável se somadas aquela nota meio rasgada e suja que mora sozinha na carteira desde as últimas cervejas do final de semana, quando, pra variar, exagerou em quase todos os sentidos, menos nos que queria, e se sentiu limitado no exagero e começou a semana assim, com jeito de fim ainda pela metade, pelo menos do mês, e o jeito é juntar a pilha de moedas, a nota surrada e passar no supermercado para, pelo menos, garantir a coca-cola, sem antes esquecer de devolver aquele devedê do domingo, filme muito bom, posso pagar depois, não posso, como?, mas eu sempre deixo para pagar depois, bom, não tenho dinheiro agora, beleza, acerto na próxima locação porque, o dinheiro da coca-cola está empenhado, é verba carimbada, se ela desviar para um outro fim qualquer o organismo faz uma cpi durante a madrugada e cassa o mandato, assim, sem dó, mas é bom lembrar de não salgar muito o bife porque a coca-cola é 600 ml e precisa ser racionalizada, como tantas outras coisas que ela, a pessoa, não racionaliza e deveria começar a racionalizar nesse dia 18 que começa ainda com cara de 17, nessa vida de quase 25 e ainda com cara de sei lá...
quarta-feira, 18 de abril de 2007
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Paladar
- Prova!
- Não! Eu sou ideologicamente contra esse negócio!
- Prova, só um!
- De jeito nenhum!
A menina recolhe o garfo estendido, faz cara de magoada.
- Ah... não faz essa cara. Tá... eu como – diz o rapaz, abrindo a boca, pronto para o sacrifício.
A moça sorri e leva o garfo à boca do rapaz, satisfeita. Ele mastiga devagar. Faz careta, tem dificuldade para engolir, fecha os olhos. Ela se debruça sobre a mesa e o beija, ainda de boca cheia.
- Com beijo até que fica gostoso – ele brinca, pouco depois de engolir.
Não era teatro. Rafael odiava brócolis desde pequeno, quando o padrasto o obrigava a comer e ele precisa ser muito rápido e discreto para conseguir jogar aquele troço para trás de uma cômoda. Isso já fazia uns 15 anos, mas ele não conseguira superar o trauma. Nem do padrasto, nem do brócoli.
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Rafael conheceu Denise quatro meses antes do brócoli numa daquelas baladas underground de cidade média. Ou seja, sempre as mesmas pessoas, as mesmas músicas, os mesmos djs. Mas ele recém voltara à cidade e ainda via novidade
- Sim, sim.
- Vira o copo...
Começaram uma conversa paralela, despretensiosa, mas que rendeu meia dúzia de risadas e sorrisos. Uma simpatia mútua os manteve juntos quando o grupo desceu para a pista de dança atrás da desculpa que os tirou de casa naquela madrugada - dançar, beber, gritar bem alto alguns refrãos. O segundo dj mal tinha começado e Rafael tomou coragem, chegou mais perto dela. Foi repelido.
- Nem vem que eu não beijo meninos...
Ele respondeu com a piada óbvia e antes de terminar a frase já estava com vergonha:
- Já temos algo em comum, então?
Por incrível que possa parecer, deu certo. Denise achou graça, eles continuaram conversando, dançando, bebendo. Até o ponto em que ele perguntou:
- Você tem certeza daquilo que disse, sobre meninos?
Ela não tinha.
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- Sabia que o brócoli ajuda a prevenir o câncer de próstata?
- Lá vem você querendo me aplicar o brócoli...
- É sério, li esses dias num site... tem que comer pelo menos três vezes por dia.
- Prefiro a dedada...
- E tem cinco vezes mais cálcio que o leite...
- Eu tomo cinco copos, sem problema... que fixação essa no brócoli, hein menina?
- Bobo...
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No mês seguinte todos comentavam. “Eles não têm nada a ver”. E pouco tinham mesmo – tirando a vontade doida de serem e se mostrarem namorados. Ela vegetariana, esotérica, estudante de ciências sociais ainda no começo do curso, engajada em política estudantil. O outro, recém-formado em jornalismo, cético, cínico e ingênuo – tudo ao mesmo tempo. Ela namorava uma menina que morava longe e com quem falava todos os dias pela internet, enquanto ele terminara o maior namoro que já tivera e deixou na cidade de onde viera – três meses de relacionamento terminado pela distância.
Aos poucos as pessoas foram se acostumando a vê-los juntos. “Os opostos se atraem”, diziam os que gostam de usar frases feitas. Com o tempo, difícil era imaginá-los separados. Nos bares, baladas, cinemas, supermercados e farmácias era natural encontrar os dois – de mãos dadas, rindo e, às vezes, até um tanto alheios a tudo que acontecia ao redor.
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Estavam há duas semanas sem se ver, a primeira vez que isso acontecia desde a noite em que se apresentaram, cinco meses antes. Na última noite juntos, o clima foi ríspido, diferente do habitual – mas cada vez mais constante nas noites em que saíam. Rafael olhava para os lados, Denise questionava o motivo dos olhares. Não se divertiram com as músicas de sempre, não aproveitaram as mesmas conversas dos amigos na mesa. Não beberam a mesma bebida. Até o dj sentiu um certo distanciamento entre os dois. Dormiram juntos, como de costume. Mas quando ela foi para casa, na manhã seguinte, pareceu um alívio para ambos – embora não preferissem não usar essa palavra ao comentar o que acontecera com os amigos íntimos.
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- Andei pesquisando sobre o brócoli...
- Foi pra isso que a gente veio aqui conversar?
- Não, mas acaba fazendo sentido no final.
- Como assim?
- Acho que o brócoli resume a gente...
- Ficou louco?
- Eu tenho pavor, você adora...
- E vamos acabar por isso? Eu paro de tentar fazer você comer... era mais brincadeira mesmo.
- O brócoli resume a gente...
- Você ficou maluco mesmo...
- É sério. É genético. Você insistiu tanto que eu andei pesquisando. Existe um gene que faz com que as pessoas considerem o brócoli 60% mais amargo do que as pessoas que não tem.
- E?
- O brócoli é metáfora pras nossas diferenças. E pra impossibilidade de contornar essas diferenças. É genético.
Os dois ficam