Faltam poucos nomes para completar o novo ministério. O presidente eleito analisa a lista organizada por seu principal correligionário, já confirmado como o poderoso chefe da Casa Civil. Risca alguns nomes, acrescenta outros ao lado. De repente, levanta a cabeça, com cara de quem teve a grande idéia. Pergunta:
- Que tal o Upiara num ministério?
- O Upiara Boschi?! Aquele vadio?
- É...
(cinco segundos de silêncio)
- Acho uma temeridade, senhor presidente.
- Você tem razão. Não seria muito produtivo.
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
domingo, 14 de janeiro de 2007
Uma noite branca
- Me beija?
- Beijo não se pede.
- Eu peço.
- Eu dou, se você me prometer uma coisa.
- O quê?
- Que não vai se apaixonar por mim.
Surpreso, o rapaz não disse nada. Continuou olhando para a menina que dançava com ele há três músicas, que ria das graças que fazia, que olhava com olhos de quem também quer. O silêncio bastou. Beijaram-se. Não era a primeira vez que ele prometia algo que não poderia cumprir.
- Beijo não se pede.
- Eu peço.
- Eu dou, se você me prometer uma coisa.
- O quê?
- Que não vai se apaixonar por mim.
Surpreso, o rapaz não disse nada. Continuou olhando para a menina que dançava com ele há três músicas, que ria das graças que fazia, que olhava com olhos de quem também quer. O silêncio bastou. Beijaram-se. Não era a primeira vez que ele prometia algo que não poderia cumprir.
quinta-feira, 11 de janeiro de 2007
Beijo sabor Keep Cooler de morango - uma aventura adolescente
Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos. A famosa frase de Nélson Rodrigues não saía da cabeça de Tadeu, enquanto ele perambulava pela festa de formatura da oitava série. Obviamente, Tadeu, 21 anos, não era um formando. Era convidado. E só estava lá por causa de sua irmã, Raquel – esta sim, uma das donas da festa. Foi porque ela pediu, insistiu, implorou. E ele, que viera sem muita vontade, agora olhava para as coleguinhas de Raquel e tinha idéias contraditórias.
Foi até o banheiro, lavou o rosto, se olhou no espelho e pensou: sou um pedófilo. Continuou a encarar o espelho até se convencer de que o desejo era natural, que a idéia de pedofilia era uma bobagem. Tentava colocar na cabeça que aquelas garotas já deviam ter aposentado as bonecas há algum tempo. Mesmo assim, não se convencia totalmente. Na verdade, já sabia que o melhor a se fazer era encher a cara e abstrair aquelas idéias. Mas havia obstáculos. Primeiro, era uma festa importante para a irmã e ele não queria dar vexame. E o principal: a única bebida alcoólica à venda no bar do clube era Keep Cooler. Tadeu não bebia Keep Cooler. Não só porque achava muito ruim, mas também porque trazia más lembranças.
“Encare a vida e saia desse banheiro, rapaz”. Assim, Tadeu se encorajava e pensava no que fazer. Uma das colegas de Raquel olhava pra ele desde que a festa começou. Será que a irmã a apresentaria? E se apresentasse, o que deveria fazer? Não agüentava mais tantas perguntas e tão poucas respostas. Deixou o banheiro, cruzou o salão em que aquele bando de pirralhos dançava uma música do Jota Quest e encontrou a irmã. Conversando com a tal menina.
– Nossa Tadeu, você sumiu!
– Eu tava no banheiro, não me sentia muito bem.
– Pensei que tivesse ido embora. Olha, essa é a Suellen. Minha melhor amiga.
Não existe cargo mais rotativo que o de melhor amiga da Raquel. Toda semana ela falava de alguém diferente, mas era sempre a melhor amiga. Esta, Suellen, ele não conhecia. A não ser pela meia-dúzia de olhares no início da festa.
– Prazer, Suellen, eu sou o Tadeu.
– Eu sei. A Raquel tava falando de ti.
– Algo de útil ela tinha que fazer, né?
Se sentiu um cretino. Por que disse isso? Três anos estudando Jornalismo e ainda não sabia usar as palavras direito. Principalmente com as mulheres, independente da idade. Ela continuou a conversa.
– Tá gostando da festa da pirralhada?
– Ei, eu não disse isso...
– Sua irmã falou que você não queria vir porque era uma festa de pirralhos.
– Mas que bela irmã eu tenho – diz Tadeu, olhando para Raquel com cara de reprovação.
Ela ri, sem graça, e diz que vai buscar uma Coca-cola. Deixa os dois sozinhos.
– E o que mais a minha irmã te disse sobre mim?
– Umas coisas...
– Se faltarem mais informações, pode perguntar diretamente a mim.
– Você fala engraçado...
Precisava baixar o nível da linguagem. Adequar-se ao público-alvo. Isso aprendeu na universidade.
– Me fala de ti. Quantos anos você tem?
– Quatorze.
Se lembrou de Nélson Rodrigues outra vez. O maldito acertou na mosca.
– Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos...
– O quê?
– Nada, nada. Estava pensando alto. O que é isso que você tá bebendo?
– Keep Cooler, de morango. Quer?
– Eu... quero. Quero sim.
Ela estendeu a garrafa, ele pegou e bebeu. Na última vez que bebera aquilo fizera uma besteira. Desde então nunca mais bebeu Keep Cooler, como se a bebida tivesse sido a culpada pelo que fizera. Já tinha esquecido o gosto, mas no primeiro gole lembrou que não era tão ruim assim. Só tinha medo de fazer besteira mais uma vez. Onde estaria Raquel? Olhou pros lados. Viu a irmã no meio de uma rodinha de formandos. “Sacana, me deixou sozinho de propósito”, ele pensou. Devolveu a garrafa para Suellen. Ela era realmente uma graça. Cabelos escuros e compridos, olhos escuros e fixos nos olhos dele. Um rosto meigo – o principal atributo que ele achava que uma mulher deveria ter. Ela bebe mais um gole e pergunta:
– Vamos pro meio da pista?
Tadeu ia dizer que sim, mas a palavra ficou presa. Estava tocando uma música do Capital Inicial e ele olhou para aquela pista cheia. A idade média das pessoas que dançavam era de 15 anos. E essa média só ficou tão alta porque duas mocinhas gordas dançavam com os próprios pais e uma das mães estava sozinha lá no meio, relembrando os embalos de sábado a noite. Ele não podia entrar ali. Já estava envergonhado só de ver o espetáculo, imagine se participasse dele. Ia recusar, mas quando percebeu já estava sendo conduzido para a pista pela delicada mãozinha de Suellen. Olhou mais uma vez para a irmã. Ela ria.
Dançava sem jeito. Demorou umas duas músicas para ficar à vontade. Continuaram conversando, só que agora, para se ouvirem, tinham que falar ao ouvido. Suellen era só um pouco mais baixa que ele. Se curvava para frente, ficava na ponta dos pés e o alcançava. Depois ele respondia no ouvido dela. Falavam um do outro, se conheciam melhor. O perfume da moça deixou Tadeu excitado e envergonhado. Achava que não tinha o direito de se excitar por causa do perfume de uma moça de 14 anos. E justo ele, que nunca gostou desses perfumes doces de adolescente. Mas o fato é que estavam cada vez mais próximos e havia um clima. De repente, Raquel se junta a eles trazendo a tal Coca-cola que dissera ter ido buscar. Grita perto dos ouvidos de ambos:
– Demorei!?
Tadeu pensou que ela deveria ter demorado ainda mais, mas ficou quieto. Não pediu, pegou a lata da mão da irmã e deu um gole. Raquel fala alguma coisa no ouvido de Suellen e ela sai, dizendo que já volta. Em seguida, a irmã diz a Tadeu que precisa lhe dizer algo.
– Fala!
– Aqui tem muito barulho!
Eles saem da pista. Tadeu olha para os lados, procura Suellen, não encontra. Ele e Raquel sentam.
– O que você queria?
– Tá todo mundo percebendo o clima entre você e a Suellen.
– Que bobagem! É uma menina.
– Tadeu, não vem com essa pra cima de mim. Eu vi como vocês estavam se olhando ali na pista. E foi ela que me implorou pra que eu apresentasse vocês.
– Então qual é o problema?
– Os pais dela não vão achar muito bonito ver um barbado se esfregando na garotinha deles. Podia ser um pouquinho mais discreto, né? Não quero confusão na minha formatura.
Ele ficou envergonhado de novo. Percebeu mais uma vez o ridículo da situação. De repente, ficou com raiva. Raiva da irmã que insistiu para que viesse à festa, da garotinha de 14 anos que se insinuava, dele mesmo que não conseguia se segurar e daquele maldito Keep Cooler que estava prestes a fazer com que ele cometesse outra besteira. Então Suellen veio até a mesa deles e se sentou. Estava com uma cara emburrada, mas ao sentar abriu um quase-sorriso. Tadeu pergunta:
– Algum problema, Suellen?
– É. Meus pais já querem ir embora. Que saco!
– Culpa minha?
– É. Tua e minha também, né?
– Desculpa então...
– Desculpo.
Se sentiu um pato. Pediu desculpas brincando e ela respondeu sério. Ele não tinha feito nada, não tinha que se desculpar por nada. Não tinha culpa se a menina era uma pirralha e se insinuava para um cara mais velho. “Sacana”, foi o que pensou. Com uma palavra, ela invertera os papéis. De repente se tornava a menininha pura e ele passava a ser o aliciador de menores.
– Então você tá indo embora?
– Quase. Implorei pra eles ficarem mais meia-hora.
– Foi bom te conhecer.
– Eu também gostei, Tadeu. Pena que esses xaropes dos meus pais tão aí...
– Faria alguma diferença se eles não estivessem?
Suellen fez uma careta. Na verdade, era a tentativa de fazer um olhar atrevido. Mas nem Tadeu, nem Raquel entenderam. Pelo menos até ela pegar a mão de Tadeu e dizer “vem comigo”. Puxado por Suellen, Tadeu se deixou conduzir, imaginando que ela o levava de volta à pista de dança. Mas o caminho era diferente. Iam para o jardim, onde a meninada aproveitava a menor iluminação para atos um pouco mais ousados que dançar – só um pouco mais ousados, por sinal. Pararam em um canto. Tadeu sentia que era um momento de decisão, mas não sabia como agir. Quem tomou a decisão foi ela
– Tadeu, me beija?
Ele não esboçou reação. Era como se não tivesse entendido a pergunta. Suellen insistiu.
– Tadeu, me beija antes que meus pais sintam minha falta.
– Calma moça, isso não é uma novela...
Então ela se jogou para frente e ficou na ponta dos pés, num movimento muito semelhante ao que fazia quando falava ao ouvido de Tadeu. Só que dessa vez ela foi aos lábios dele e o beijou. Ao sentir o toque dos lábios e da pele macia – macia como só é a pele de uma garota de 14 anos – ele jogou pro alto os escrúpulos. Tomou a moça nos braços e se entregou àquele beijo pouco experiente. Segurava a moça com todo cuidado, como se fosse frágil, como se ela pudesse quebrar caso ele fizesse um movimento um pouco mais brusco. Até que ela se solta, olha para ele com uma cara contente, lambe os lábios e diz:
– Tenho que ir, meus pais já devem estar me procurando.
– Fica mais um pouco.
– Não posso.
– Me dá teu telefone, vamos nos ver outra vez.
– Tua irmã tem.
Outro beijo. Seco, rápido, de despedida. Suellen sai correndo de volta para o salão. Tadeu fica no jardim, colocando as idéias em ordem. Já pensa em ligar para ela. Quer convidá-la para ir ao cinema ou fazer qualquer coisa durante a semana. Precisa vê-la de novo, apesar das mil dúvidas que tem. Ele não podia namorar um menina de 14 anos. Andar por aí de mãos dadas, levar nas festas, apresentar aos amigos. Seria impossível. E ao mesmo tempo, há muito uma garota não mexia tanto com ele. Estava pensando naquela pele, absurdamente macia, quando apareceu a Raquel.
– Você vai ficar sozinho aí o resto da noite?
– Me deixa quieto um pouco.
– E então adulto, se divertiu na festa das crianças?
– Engraçadinha. De onde veio aquela moça, a tua melhor amiga?
– Melhor amiga? Nunca vi antes.
– Mas você falou...
– Ah, ela pediu pra eu falar e eu falei. Achei engraçado.
– Vocês me fizeram de bobo.
– Não faz drama, Tadeu.
– Ela disse que você tinha o telefone dela...
– Eu? Não... ela deve ter se enganado.
Tadeu correu em direção à festa. Procurou por Suellen em cada canto do salão. Na pista, no bar, na fila dos banheiros, na saída. Ela realmente tinha ido embora e ele não tinha nenhum contato. Então percebeu que estava fazendo um péssimo papel: o otário na festa das crianças. Não era possível, ele não conseguia entender. Achava que em algum momento ela apareceria rindo e perguntando se ele tinha sentido falta. Trocariam mais uns beijos, algumas carícias e os números de telefone. Mas ela não apareceu. Cabisbaixo, indignado e humilhado, Tadeu não tinha muitas alternativas. Foi até o bar.
– Me dá uma garrafa de Keep Cooler.
Foi até o banheiro, lavou o rosto, se olhou no espelho e pensou: sou um pedófilo. Continuou a encarar o espelho até se convencer de que o desejo era natural, que a idéia de pedofilia era uma bobagem. Tentava colocar na cabeça que aquelas garotas já deviam ter aposentado as bonecas há algum tempo. Mesmo assim, não se convencia totalmente. Na verdade, já sabia que o melhor a se fazer era encher a cara e abstrair aquelas idéias. Mas havia obstáculos. Primeiro, era uma festa importante para a irmã e ele não queria dar vexame. E o principal: a única bebida alcoólica à venda no bar do clube era Keep Cooler. Tadeu não bebia Keep Cooler. Não só porque achava muito ruim, mas também porque trazia más lembranças.
“Encare a vida e saia desse banheiro, rapaz”. Assim, Tadeu se encorajava e pensava no que fazer. Uma das colegas de Raquel olhava pra ele desde que a festa começou. Será que a irmã a apresentaria? E se apresentasse, o que deveria fazer? Não agüentava mais tantas perguntas e tão poucas respostas. Deixou o banheiro, cruzou o salão em que aquele bando de pirralhos dançava uma música do Jota Quest e encontrou a irmã. Conversando com a tal menina.
– Nossa Tadeu, você sumiu!
– Eu tava no banheiro, não me sentia muito bem.
– Pensei que tivesse ido embora. Olha, essa é a Suellen. Minha melhor amiga.
Não existe cargo mais rotativo que o de melhor amiga da Raquel. Toda semana ela falava de alguém diferente, mas era sempre a melhor amiga. Esta, Suellen, ele não conhecia. A não ser pela meia-dúzia de olhares no início da festa.
– Prazer, Suellen, eu sou o Tadeu.
– Eu sei. A Raquel tava falando de ti.
– Algo de útil ela tinha que fazer, né?
Se sentiu um cretino. Por que disse isso? Três anos estudando Jornalismo e ainda não sabia usar as palavras direito. Principalmente com as mulheres, independente da idade. Ela continuou a conversa.
– Tá gostando da festa da pirralhada?
– Ei, eu não disse isso...
– Sua irmã falou que você não queria vir porque era uma festa de pirralhos.
– Mas que bela irmã eu tenho – diz Tadeu, olhando para Raquel com cara de reprovação.
Ela ri, sem graça, e diz que vai buscar uma Coca-cola. Deixa os dois sozinhos.
– E o que mais a minha irmã te disse sobre mim?
– Umas coisas...
– Se faltarem mais informações, pode perguntar diretamente a mim.
– Você fala engraçado...
Precisava baixar o nível da linguagem. Adequar-se ao público-alvo. Isso aprendeu na universidade.
– Me fala de ti. Quantos anos você tem?
– Quatorze.
Se lembrou de Nélson Rodrigues outra vez. O maldito acertou na mosca.
– Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos...
– O quê?
– Nada, nada. Estava pensando alto. O que é isso que você tá bebendo?
– Keep Cooler, de morango. Quer?
– Eu... quero. Quero sim.
Ela estendeu a garrafa, ele pegou e bebeu. Na última vez que bebera aquilo fizera uma besteira. Desde então nunca mais bebeu Keep Cooler, como se a bebida tivesse sido a culpada pelo que fizera. Já tinha esquecido o gosto, mas no primeiro gole lembrou que não era tão ruim assim. Só tinha medo de fazer besteira mais uma vez. Onde estaria Raquel? Olhou pros lados. Viu a irmã no meio de uma rodinha de formandos. “Sacana, me deixou sozinho de propósito”, ele pensou. Devolveu a garrafa para Suellen. Ela era realmente uma graça. Cabelos escuros e compridos, olhos escuros e fixos nos olhos dele. Um rosto meigo – o principal atributo que ele achava que uma mulher deveria ter. Ela bebe mais um gole e pergunta:
– Vamos pro meio da pista?
Tadeu ia dizer que sim, mas a palavra ficou presa. Estava tocando uma música do Capital Inicial e ele olhou para aquela pista cheia. A idade média das pessoas que dançavam era de 15 anos. E essa média só ficou tão alta porque duas mocinhas gordas dançavam com os próprios pais e uma das mães estava sozinha lá no meio, relembrando os embalos de sábado a noite. Ele não podia entrar ali. Já estava envergonhado só de ver o espetáculo, imagine se participasse dele. Ia recusar, mas quando percebeu já estava sendo conduzido para a pista pela delicada mãozinha de Suellen. Olhou mais uma vez para a irmã. Ela ria.
Dançava sem jeito. Demorou umas duas músicas para ficar à vontade. Continuaram conversando, só que agora, para se ouvirem, tinham que falar ao ouvido. Suellen era só um pouco mais baixa que ele. Se curvava para frente, ficava na ponta dos pés e o alcançava. Depois ele respondia no ouvido dela. Falavam um do outro, se conheciam melhor. O perfume da moça deixou Tadeu excitado e envergonhado. Achava que não tinha o direito de se excitar por causa do perfume de uma moça de 14 anos. E justo ele, que nunca gostou desses perfumes doces de adolescente. Mas o fato é que estavam cada vez mais próximos e havia um clima. De repente, Raquel se junta a eles trazendo a tal Coca-cola que dissera ter ido buscar. Grita perto dos ouvidos de ambos:
– Demorei!?
Tadeu pensou que ela deveria ter demorado ainda mais, mas ficou quieto. Não pediu, pegou a lata da mão da irmã e deu um gole. Raquel fala alguma coisa no ouvido de Suellen e ela sai, dizendo que já volta. Em seguida, a irmã diz a Tadeu que precisa lhe dizer algo.
– Fala!
– Aqui tem muito barulho!
Eles saem da pista. Tadeu olha para os lados, procura Suellen, não encontra. Ele e Raquel sentam.
– O que você queria?
– Tá todo mundo percebendo o clima entre você e a Suellen.
– Que bobagem! É uma menina.
– Tadeu, não vem com essa pra cima de mim. Eu vi como vocês estavam se olhando ali na pista. E foi ela que me implorou pra que eu apresentasse vocês.
– Então qual é o problema?
– Os pais dela não vão achar muito bonito ver um barbado se esfregando na garotinha deles. Podia ser um pouquinho mais discreto, né? Não quero confusão na minha formatura.
Ele ficou envergonhado de novo. Percebeu mais uma vez o ridículo da situação. De repente, ficou com raiva. Raiva da irmã que insistiu para que viesse à festa, da garotinha de 14 anos que se insinuava, dele mesmo que não conseguia se segurar e daquele maldito Keep Cooler que estava prestes a fazer com que ele cometesse outra besteira. Então Suellen veio até a mesa deles e se sentou. Estava com uma cara emburrada, mas ao sentar abriu um quase-sorriso. Tadeu pergunta:
– Algum problema, Suellen?
– É. Meus pais já querem ir embora. Que saco!
– Culpa minha?
– É. Tua e minha também, né?
– Desculpa então...
– Desculpo.
Se sentiu um pato. Pediu desculpas brincando e ela respondeu sério. Ele não tinha feito nada, não tinha que se desculpar por nada. Não tinha culpa se a menina era uma pirralha e se insinuava para um cara mais velho. “Sacana”, foi o que pensou. Com uma palavra, ela invertera os papéis. De repente se tornava a menininha pura e ele passava a ser o aliciador de menores.
– Então você tá indo embora?
– Quase. Implorei pra eles ficarem mais meia-hora.
– Foi bom te conhecer.
– Eu também gostei, Tadeu. Pena que esses xaropes dos meus pais tão aí...
– Faria alguma diferença se eles não estivessem?
Suellen fez uma careta. Na verdade, era a tentativa de fazer um olhar atrevido. Mas nem Tadeu, nem Raquel entenderam. Pelo menos até ela pegar a mão de Tadeu e dizer “vem comigo”. Puxado por Suellen, Tadeu se deixou conduzir, imaginando que ela o levava de volta à pista de dança. Mas o caminho era diferente. Iam para o jardim, onde a meninada aproveitava a menor iluminação para atos um pouco mais ousados que dançar – só um pouco mais ousados, por sinal. Pararam em um canto. Tadeu sentia que era um momento de decisão, mas não sabia como agir. Quem tomou a decisão foi ela
– Tadeu, me beija?
Ele não esboçou reação. Era como se não tivesse entendido a pergunta. Suellen insistiu.
– Tadeu, me beija antes que meus pais sintam minha falta.
– Calma moça, isso não é uma novela...
Então ela se jogou para frente e ficou na ponta dos pés, num movimento muito semelhante ao que fazia quando falava ao ouvido de Tadeu. Só que dessa vez ela foi aos lábios dele e o beijou. Ao sentir o toque dos lábios e da pele macia – macia como só é a pele de uma garota de 14 anos – ele jogou pro alto os escrúpulos. Tomou a moça nos braços e se entregou àquele beijo pouco experiente. Segurava a moça com todo cuidado, como se fosse frágil, como se ela pudesse quebrar caso ele fizesse um movimento um pouco mais brusco. Até que ela se solta, olha para ele com uma cara contente, lambe os lábios e diz:
– Tenho que ir, meus pais já devem estar me procurando.
– Fica mais um pouco.
– Não posso.
– Me dá teu telefone, vamos nos ver outra vez.
– Tua irmã tem.
Outro beijo. Seco, rápido, de despedida. Suellen sai correndo de volta para o salão. Tadeu fica no jardim, colocando as idéias em ordem. Já pensa em ligar para ela. Quer convidá-la para ir ao cinema ou fazer qualquer coisa durante a semana. Precisa vê-la de novo, apesar das mil dúvidas que tem. Ele não podia namorar um menina de 14 anos. Andar por aí de mãos dadas, levar nas festas, apresentar aos amigos. Seria impossível. E ao mesmo tempo, há muito uma garota não mexia tanto com ele. Estava pensando naquela pele, absurdamente macia, quando apareceu a Raquel.
– Você vai ficar sozinho aí o resto da noite?
– Me deixa quieto um pouco.
– E então adulto, se divertiu na festa das crianças?
– Engraçadinha. De onde veio aquela moça, a tua melhor amiga?
– Melhor amiga? Nunca vi antes.
– Mas você falou...
– Ah, ela pediu pra eu falar e eu falei. Achei engraçado.
– Vocês me fizeram de bobo.
– Não faz drama, Tadeu.
– Ela disse que você tinha o telefone dela...
– Eu? Não... ela deve ter se enganado.
Tadeu correu em direção à festa. Procurou por Suellen em cada canto do salão. Na pista, no bar, na fila dos banheiros, na saída. Ela realmente tinha ido embora e ele não tinha nenhum contato. Então percebeu que estava fazendo um péssimo papel: o otário na festa das crianças. Não era possível, ele não conseguia entender. Achava que em algum momento ela apareceria rindo e perguntando se ele tinha sentido falta. Trocariam mais uns beijos, algumas carícias e os números de telefone. Mas ela não apareceu. Cabisbaixo, indignado e humilhado, Tadeu não tinha muitas alternativas. Foi até o bar.
– Me dá uma garrafa de Keep Cooler.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
mais um texto antigo, daqueles que nunca vou terminar
- Por que a gente não tá na praia? – pergunta Bruno.
- A gente tava lá e tava um saco... quer voltar?
- Vamos jogar mais essa, depois a gente vê.
Esses dois andavam sempre juntos nos dois meses de férias naquela pequena praia do litoral gaúcho. Desde moleques. Sempre comprando fichinhas. Antes, de fliperama. Agora, depois dos 18, sinuca. Eles não têm muito em comum, mas mantém uma espécie de acordo tácito: em janeiro eles precisam se acertar porque só têm um ao outro. Isso nunca foi discutido entre os dois, e se alguém lhes dissesse isso, fariam cara feia, diriam que não é verdade. Mas no fundo eles sabem que é por aí. Nessa tarde, eles foram à praia, beberam uma cerveja, não encontraram conhecidos e Bruno, o mais impulsivo dos dois, resmungou e convenceu o primo a ir jogar sinuca.
- Isso aqui tá uma merda. Ninguém pra tomar cerveja com a gente, bandeira vermelha, mar acholatado. Vamos jogar sinuca?
- Bruno, são três horas...
- Ah... melhor que ficar aqui... aí tu treina um pouco também...
- Vamos ver quem é que precisa de treino.
Pedro caía nas provocações de Bruno e isso sempre o fazia perder o controle da situação. As vontades de Bruno prevaleciam facilmente. A sorte de Pedro é que Bruno nunca percebeu isso, nunca usou esse expediente de forma intencional. Na mesa de sinuca, ao contrário, o domínio era de Pedro. Ganhara os três jogos e riu muito por ver um Bruno indignado ir buscar a quarta ficha.
- Pensei que tivesse cansado de treinar, Bruno!
- Ah... vai te fuder, seu largo...
Quando Bruno voltou com mais fichas, entraram duas meninas para jogar também. As duas morenas, meiguinhas, uma de camiseta azul com estampa das meninas superpoderosas e a outra de verde. Daquelas que até dois verões atrás viviam montadas em bicicletas e andavam em bando junto com as irmãs menores dos amigos. Agora estavam sozinhas e não pareciam duas menininhas. Bruno colocou a ficha na mesa olhando pra elas.
- Conhece, Pedro?
- De vista... essas meninas andam sempre em bando.
- Agora não...
- No que você tá pensando?
- Tive uma idéia...
- Bruno...
Quando Bruno tinha uma idéia, a chance dela ser posta em prática era de 95%. E mais uma vez ele fez o que lhe passou pela cabeça sem consultar ninguém.
- Ei, meninas! – gritou.
- O que foi? – respondeu a menorzinha, a das superpoderosas.
- Como vocês se chamam?
- Tatiana – disse a superpoderosa.
- Marimá – disse a outra.
- Marimá, que diferente, disse Pedro, meio sem pensar.
- É Maria Mariana, mas ela detesta... prefere que chamem de Marimá – interveio Tatiana, rindo em seguida apesar da cara contrariada da amiga.
- Prazer... meu nome é Bruno e esse é o meu primo Pedro. A gente tá aqui há um tempão, a gente não agüenta mais se ver e ele tá bravo porque eu ganho todas...
- Mas que mentiroso... – resmungou o primo.
- ... aí eu vi vocês entrarem e tive uma idéia. Vocês topam participar de uma brincadeira?
- Brincadeira, como assim? disse Marimá, um tanto desconfiada.
- Calma menina... sinuca. Ó... quem ganhar no jogo aqui da nossa mesa, joga com quem ganhar na mesa de vocês. Topam?
As meninas riram e aceitaram a brincadeira. Pedro gostou da idéia do primo e já imaginava qual das duas meninas queria jogar: Marimá. Achou lindo o nome, apelido, seja o que for. E ela era uma gracinha também. Passava giz no taco, distraído e nem viu o primo chegar perto para dizer baixinho.
- Eu quero a Marimá.
O mais interessante do jogo criado por Bruno é que não era uma disputa baseada no talento para a sinuca. Ambos queriam Marimá e se ela perdesse, ganhar a disputa significava perder o jogo. Eles poderiam prestar atenção no jogo delas para saber se deveriam ganhar ou perder, mas entre a mesa deles e a das meninas havia outra vazia. Que logo foi ocupada por um menino de uns sete anos e seu pai, um barrigudo de sunga e camiseta regata.
- Você inventou o jogo, agora agüenta as regras. Ou torce pra ela perder.
- Duvido que ela perca para a outra...
- Então trata de ganhar o jogo. Eu também prefiro a Marimá.
- Cachorro... oquei. Mas tem uma coisa... nesse jogo a gente decide quem fica com quem. Se eu ganhar a Marimá, você nem olha pra ela até o fim de janeiro.
- E vice-versa.
- Exato. Se você ganhar a Tatiana eu prometo não olhar pra ela até o fim de janeiro também.
- Seu calhorda...
Riram e começaram o jogo que poderia definir as próximas duas semanas.
- A gente tava lá e tava um saco... quer voltar?
- Vamos jogar mais essa, depois a gente vê.
Esses dois andavam sempre juntos nos dois meses de férias naquela pequena praia do litoral gaúcho. Desde moleques. Sempre comprando fichinhas. Antes, de fliperama. Agora, depois dos 18, sinuca. Eles não têm muito em comum, mas mantém uma espécie de acordo tácito: em janeiro eles precisam se acertar porque só têm um ao outro. Isso nunca foi discutido entre os dois, e se alguém lhes dissesse isso, fariam cara feia, diriam que não é verdade. Mas no fundo eles sabem que é por aí. Nessa tarde, eles foram à praia, beberam uma cerveja, não encontraram conhecidos e Bruno, o mais impulsivo dos dois, resmungou e convenceu o primo a ir jogar sinuca.
- Isso aqui tá uma merda. Ninguém pra tomar cerveja com a gente, bandeira vermelha, mar acholatado. Vamos jogar sinuca?
- Bruno, são três horas...
- Ah... melhor que ficar aqui... aí tu treina um pouco também...
- Vamos ver quem é que precisa de treino.
Pedro caía nas provocações de Bruno e isso sempre o fazia perder o controle da situação. As vontades de Bruno prevaleciam facilmente. A sorte de Pedro é que Bruno nunca percebeu isso, nunca usou esse expediente de forma intencional. Na mesa de sinuca, ao contrário, o domínio era de Pedro. Ganhara os três jogos e riu muito por ver um Bruno indignado ir buscar a quarta ficha.
- Pensei que tivesse cansado de treinar, Bruno!
- Ah... vai te fuder, seu largo...
Quando Bruno voltou com mais fichas, entraram duas meninas para jogar também. As duas morenas, meiguinhas, uma de camiseta azul com estampa das meninas superpoderosas e a outra de verde. Daquelas que até dois verões atrás viviam montadas em bicicletas e andavam em bando junto com as irmãs menores dos amigos. Agora estavam sozinhas e não pareciam duas menininhas. Bruno colocou a ficha na mesa olhando pra elas.
- Conhece, Pedro?
- De vista... essas meninas andam sempre em bando.
- Agora não...
- No que você tá pensando?
- Tive uma idéia...
- Bruno...
Quando Bruno tinha uma idéia, a chance dela ser posta em prática era de 95%. E mais uma vez ele fez o que lhe passou pela cabeça sem consultar ninguém.
- Ei, meninas! – gritou.
- O que foi? – respondeu a menorzinha, a das superpoderosas.
- Como vocês se chamam?
- Tatiana – disse a superpoderosa.
- Marimá – disse a outra.
- Marimá, que diferente, disse Pedro, meio sem pensar.
- É Maria Mariana, mas ela detesta... prefere que chamem de Marimá – interveio Tatiana, rindo em seguida apesar da cara contrariada da amiga.
- Prazer... meu nome é Bruno e esse é o meu primo Pedro. A gente tá aqui há um tempão, a gente não agüenta mais se ver e ele tá bravo porque eu ganho todas...
- Mas que mentiroso... – resmungou o primo.
- ... aí eu vi vocês entrarem e tive uma idéia. Vocês topam participar de uma brincadeira?
- Brincadeira, como assim? disse Marimá, um tanto desconfiada.
- Calma menina... sinuca. Ó... quem ganhar no jogo aqui da nossa mesa, joga com quem ganhar na mesa de vocês. Topam?
As meninas riram e aceitaram a brincadeira. Pedro gostou da idéia do primo e já imaginava qual das duas meninas queria jogar: Marimá. Achou lindo o nome, apelido, seja o que for. E ela era uma gracinha também. Passava giz no taco, distraído e nem viu o primo chegar perto para dizer baixinho.
- Eu quero a Marimá.
O mais interessante do jogo criado por Bruno é que não era uma disputa baseada no talento para a sinuca. Ambos queriam Marimá e se ela perdesse, ganhar a disputa significava perder o jogo. Eles poderiam prestar atenção no jogo delas para saber se deveriam ganhar ou perder, mas entre a mesa deles e a das meninas havia outra vazia. Que logo foi ocupada por um menino de uns sete anos e seu pai, um barrigudo de sunga e camiseta regata.
- Você inventou o jogo, agora agüenta as regras. Ou torce pra ela perder.
- Duvido que ela perca para a outra...
- Então trata de ganhar o jogo. Eu também prefiro a Marimá.
- Cachorro... oquei. Mas tem uma coisa... nesse jogo a gente decide quem fica com quem. Se eu ganhar a Marimá, você nem olha pra ela até o fim de janeiro.
- E vice-versa.
- Exato. Se você ganhar a Tatiana eu prometo não olhar pra ela até o fim de janeiro também.
- Seu calhorda...
Riram e começaram o jogo que poderia definir as próximas duas semanas.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
As aventuras de um ex-presidente na Lagoa da Conceição
Aqueles bêbados da mesa perto da árvore estavam ali desde as duas horas da manhã. A propósito, passa das dez. A loja de roupas, artesanato e outras coisas de hippie já está aberta e todos os bares fechados. Com exceção, é claro, do bar que serve a última mesa de bêbados da noite na Lagoa da Conceição. Ou a primeira do dia, depende do ponto de vista.
Na loja ainda não entrou ninguém. A vendedora reclama baixo do barulho que faz o pessoal lá fora enquanto ela organiza o caixa. É quando entra uma mulher de meia idade, bem vestida, a procura de uma saída de praia. Com ela, um homem baixo, bem vestido, e com um topete de cabelos brancos facilmente reconhecível: o ex-presidente Itamar Franco.
A vendedora se assusta, não sabe o que dizer mas fica aliviada quando vê o marido da dona da loja chegando para ajudar. Provavelmente ele só veio pegar um dinheiro no caixa pra ir à praia, mas já que está aqui...
Ele chega fazendo o tipo simpático, "em que posso ajudar", coisa e tal. Tenta se mostrar bem informado, íntimo do noticiário político nacional, e começa a chamar a companheira do ex-presidente de "June". Mais tarde vai morrer de vergonha quando descobrir que June era a ex-namorada de Itamar.
Por enquanto ele não sabe da gafe e continua a puxar conversa com o constrangido ex-presidente. Quando descobre que ele está hospedado na casa do deputado Edison Andrino, se empolga. "Sabe como é, presidente, a gente gosta muito do Andrino, quer votar nele. Mas chega na hora da eleição o partido aparece com Paulo Afonso." São alas diferentes, explica o atual governador mineiro.
A companheira de Itamar não conseguiu achar nenhuma saída de banho que a interessasse, mas o ex-presidente resolveu comprar um pano hindu, em que estava representada uma deusa de lá. Detalhe, o pano não estava à venda. A vendedora correu ao telefone perguntar à dona se podia vender o pano à ilustre figura. Enquanto o marido continuava a conversa política: "Vai sair a presidente de novo? O Pedro Simon tá forte lá no Rio Grande do Sul." É um bom candidato, concordava Itamar.
Enquanto a vendedora telefonava para a dona da loja, os bêbados da mesa perto da árvore que estavam ali desde as duas da manhã resolveram entrar para ver se aquele topetudo não seria, por acaso, o Itamar Franco. Quando perceberam que era mesmo, se emocionaram. O primeiro que entrou pediu um abraço. Depois, a única mulher do grupo chegou, disse que era petista mas admirava o trabalho do ex-presidente e pediu para dar um beijo. Por último, o mais emocionado de todos disse, quase chorando: "Eu queria tirar uma foto tua. Mas eu queria tirar... só do teu topete", afimou, enquadrando o topete ex-presidencial com as mãos. Felizmente não tinha máquina fotográfica.
A venda foi autorizada. Itamar foi embora com a companheira, procurar uma saída de banho em alguma outra loja. De preferência sem bares abertos por perto. Embora deva ser moleza agüentar meia dúzia de bêbados num sábado de manhã na Lagoa da Conceição pra quem teve Fernando Henrique Cardoso no ministério por quase dois anos. Pelo menos ele pôde ir à praia depois da puxada de saco.
Na loja ainda não entrou ninguém. A vendedora reclama baixo do barulho que faz o pessoal lá fora enquanto ela organiza o caixa. É quando entra uma mulher de meia idade, bem vestida, a procura de uma saída de praia. Com ela, um homem baixo, bem vestido, e com um topete de cabelos brancos facilmente reconhecível: o ex-presidente Itamar Franco.
A vendedora se assusta, não sabe o que dizer mas fica aliviada quando vê o marido da dona da loja chegando para ajudar. Provavelmente ele só veio pegar um dinheiro no caixa pra ir à praia, mas já que está aqui...
Ele chega fazendo o tipo simpático, "em que posso ajudar", coisa e tal. Tenta se mostrar bem informado, íntimo do noticiário político nacional, e começa a chamar a companheira do ex-presidente de "June". Mais tarde vai morrer de vergonha quando descobrir que June era a ex-namorada de Itamar.
Por enquanto ele não sabe da gafe e continua a puxar conversa com o constrangido ex-presidente. Quando descobre que ele está hospedado na casa do deputado Edison Andrino, se empolga. "Sabe como é, presidente, a gente gosta muito do Andrino, quer votar nele. Mas chega na hora da eleição o partido aparece com Paulo Afonso." São alas diferentes, explica o atual governador mineiro.
A companheira de Itamar não conseguiu achar nenhuma saída de banho que a interessasse, mas o ex-presidente resolveu comprar um pano hindu, em que estava representada uma deusa de lá. Detalhe, o pano não estava à venda. A vendedora correu ao telefone perguntar à dona se podia vender o pano à ilustre figura. Enquanto o marido continuava a conversa política: "Vai sair a presidente de novo? O Pedro Simon tá forte lá no Rio Grande do Sul." É um bom candidato, concordava Itamar.
Enquanto a vendedora telefonava para a dona da loja, os bêbados da mesa perto da árvore que estavam ali desde as duas da manhã resolveram entrar para ver se aquele topetudo não seria, por acaso, o Itamar Franco. Quando perceberam que era mesmo, se emocionaram. O primeiro que entrou pediu um abraço. Depois, a única mulher do grupo chegou, disse que era petista mas admirava o trabalho do ex-presidente e pediu para dar um beijo. Por último, o mais emocionado de todos disse, quase chorando: "Eu queria tirar uma foto tua. Mas eu queria tirar... só do teu topete", afimou, enquadrando o topete ex-presidencial com as mãos. Felizmente não tinha máquina fotográfica.
A venda foi autorizada. Itamar foi embora com a companheira, procurar uma saída de banho em alguma outra loja. De preferência sem bares abertos por perto. Embora deva ser moleza agüentar meia dúzia de bêbados num sábado de manhã na Lagoa da Conceição pra quem teve Fernando Henrique Cardoso no ministério por quase dois anos. Pelo menos ele pôde ir à praia depois da puxada de saco.
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