terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Muito além da pauta

A pauta não era o sonho de nenhum repórter. Domingo de manhã, numa comunidade carente do município vizinho a Joinville, duas centenas de crianças receberiam presentes e a visita do papai noel. E por mais bem feita, bem sucedida e bonita que fosse a iniciativa, nada tirava da cabeça do repórter a palavra que piscava em néon roxo: roubada. Quando ele viu a multidão na pequena escola, saindo com embrulhos de presente e cestas básicas, odiou estar de plantão, ter que entrevistar as pessoas, perguntar se o natal seria mais feliz este ano por causa daquilo.

Mas saiu de lá feliz por causa de Bruna. Ou melhor, de Bruna Maria do Carmo Fosterot. Fos-te-rót, como ela bem soletrou para o repórter e para quem mais precisasse ouvir. O repórter e a fotógrafa já estavam indo embora e ele sabia que tinha feito um trabalho porco, que teria imensa dificuldade para transformar a apuração preguiçosa em texto. A menina estava do lado de fora do colégio, cabisbaixa, na sombra, embaixo de um telefone público. Foi a fotógrafa quem sugeriu: “Fala com ela. Foi uma das meninas que eu fotografei”.

Vamos lá.

- Oi... como é o teu nome?
- Bruna.
- E o sobrenome?
- Maria do Carmo Fosterot.
- Sabe como escreve, Bruna?
- Sei... Fos-te-rót.
- Quantos anos você tem?
- Seis.
- Já pegou o teu presente?
- Não, eu não ganhei presente...

Silêncio ensurdecedor, interrompido pela fotógrafa.

- Você não tá cadastrada?
- Eu tô cadastrada, sim. Mas a minha mãe não veio...

Mais silêncio. O repórter e a fotógrafa em dúvida se choram, arranjam um presente ou levam a princesinha pra casa. Aparece Cícero, um dos organizadores da festa. Ainda abaixado (posição que escolheu para entrevistar a menina), o repórter olha para ele e pergunta:

- Não tem como dar um jeito nisso, Cícero?
- Acho que sim, como é o teu nome?
- Bruna Maria do Carmo Fos-te-rót...

Fomos todos para a fila onde as crianças pegavam os brinquedos doados pelos funcionários de uma empresa de Joinville. Entramos direto na sala onde guardavam os brinquedos. O nome de Bruna estava lá, cadastrado, como ela garantira. A menina recebeu os pacotes, posou para um par de fotos segurando os dois embrulhos e saiu contente, procurando o irmão maior. Sumiu entre as outras 235 crianças que participaram do evento. O repórter e a fotógrafa foram embora. Ainda meio encantados, esquecendo por um tempinho que era manhã de domingo, que o calor do norte catarinense em dezembro devia ser proibido por lei e que eles estavam de plantão.

Culpa da Bruna. Vejam o registro de Cristiane Serpa, a fotógrafa, e entendam.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Na esquina da Conselheiro Mafra com a Felipe Schimidt

É. O título não tem nada de nonsense. Aqui em Joinville a Conselheiro Mafra e a Felipe Schmidt cruzam. Dão numa das laterais menos concorridas do principal shopping da cidade – que como quase tudo aqui, tem nome de alemão. Eu poderia listar facilmente tudo o que não gostei em Joinville, as coisas que sei serem impossíveis de me acostumar, etcétera e tal. Chove. Quando não chove, é quente pra burro. Às vezes chove e continua quente. Todo mundo diz que vai piorar.

Mas eu não vou listar mais nada. O objetivo do texto nunca foi esse. Escrevo pra dizer que eu estou gostando. Ainda não conheço a cidade, porque o jornal não deixa. Passo a tarde e a noite lá dentro, a manhã dormindo em casa. Ainda não conheci a cidade. O pouco que conheci também não me atraiu muito, mas vou continuar evitando ser ranzinza nesse texto.

A redação é bacana. Tem cara, barulho e clima de redação de jornal. A correria do fechamento, a discussão da manchete, a reunião chata que avalia tudo no início da tarde seguinte. Tudo o que a sucursal já teve e perdeu. Maior, porque é matriz. Estava precisando disso. Lembrar que jornalismo não é só fazer sete telefonemas, rabiscar algumas coisas, montar um texto e ligar para a editora dizendo que ele está na pasta dois do sistema e que qualquer dúvida ela tem meu celular.

Estou lembrando e é por isso que até vou me esforçar para viver bem numa cidade em que o último posto de conveniência fecha dez para a meia-noite. Evitando a rabugice e não conseguindo, lógico.