domingo, 21 de dezembro de 2008

Roteiro

Começou com a zapeada que parei pra rever uma cena de Um Lugar Chamado Notthing Hill. A cena se estendeu até o fim do filme e acabou dando o tom do sábado sem planos que me aguardava. Eu sabia que devia ter comprado pipoca.

Depois de Julia Roberts e Hugh Grant acertarem os ponteiros, a história de repetiu. Canal pra lá, canal pra cá, reconhecer uma cena, parar e ver o filme até o fim. Dessa vez, era O Amor e Outros Desastres. Quando acabou, cansado de reprises e comédias românticas, revolvi sair de casa. Sem idéias melhores ou um número de telefone para ligar, acabei fazendo mais do mesmo – fora de casa.

Cinema de shopping, em cartaz o filme que Woddy Allen emula Almodóvar. Pelo menos era isso que eu tinha entendido pelo trailer, as resenhas e os comentários. Vi tudo de Allen, nada de Almodóvar e gostei muito. Ponto alto da tarde de sábado – junto com a compra de um escorredor de louça, uma vassoura e um kit caipirinha.

Na volta pra casa, outro filme. A bomba chamada Turistas passava no Telecine Premium e eu resolvi assistir para comprovar que era um lixo. Taí um filme tão ruim que vai ser dificil defender como forma de parecer idiossincrático. Dois episódios seguidos do Two And Half Men melhoraram as coisas.

Mais um sábado de sol desses e eu surto de novo...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tempo de mudança

Morar sozinho é o sonho de mais de uma década. Pode parecer exagero, mas desde muito pequeno eu sempre achei que pessoas dentro de casa muito tempo acabavam sendo um estorvo. Por mais que gostasse delas - família, os amigos com quem dividi apartamento -, era quase sempre frustrante ouvir o barulho da porta abrindo, dos passos no corredor ou qualquer outro sinal de que o lugar não era mais só meu.

Nas duas noites em que dormi no apartamento que aluguei, senti a sensação de estranha de que talvez alguém estivesse por chegar. Cada barulhinho diferente causava um breve despertar, seguido por uma pequena euforia. Estou sozinho.

As dificuldades todas que a mudança impôs - burocracias de imobiliária, por exemplo -,acabaram tornado ainda mais ritual esses dois meses em que estou tentando morar no pequeno apartamento que aluguei em Joinville. As chaves estão comigo desde o dia 4, mas a companhia de energia elétrica deu um prazo até dia 15 para acender a luz.

Assim, à meia-luz foi feita a mudança e foram entregues as últimas compras que fizeram do apartamento vazio um espaço habitável. É frustrante ir todo dia lá, acender a luz e tudo continuar escuro. Mas é ritual... sonhos de mais de uma década não costumam se resolver num click.

Abaixo, a sala sem luz.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A gata sabe

Olhou pro lado, Débora dormia apertada entre ele e a parede naquele colchão minúsculo, sobre o chão. Sem sono, sentindo um pouco de fome, ele resolveu levantar. Com todo cuidado, é claro. Antes de fechar a porta do quarto, deu uma última olhada. Ela continuava dormindo, linda. Sorriu e foi até a sala. Ligou a TV, começou a ver um filme baseado em O médico e o monstro. No intervalo, foi à cozinha achar o que comer.

Continuou vendo o filme sem prestar muita atenção. Pensava mesmo era na menina que dormia em seu quarto pela segunda vez em duas semanas. Pegou no colo a gatinha branca e sem nome deitada no colchão que fazia as vezes de sofá da sala e perguntou:

- Que eu faço agora, linda?

A gata respondeu, é claro. Mas ele nunca entendia o que ela queria dizer. Mais uma vez teria que agir por conta própria – sabendo que a própria nunca foi a melhor conselheira. Decidiu deixar a gata de volta no colchão, o pacote de bolachas pela metade, voltar para o quarto e viver aquela história sem titubear. 

E assim fez.

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A história durou três meses e acabou sem culpas. Ele se despediu dela, da gata branca, dos colchões no chão. Voltou à cidade em que morava antes e começou a vida adulta – pelo menos a parte que envolve receber um contracheque no final de cada mês, pagar fatura de cartão de crédito e pensar que, guardando parte do que ganha todo mês, comprar um apartamento não seria tão impossível. 

Depois de Débora, outras paixões vieram. Talvez até mais sérias, por serem acompanhadas por responsabilidades que antes eram só perspectivas. Continuam se falando quase todos os dias, com a tranqüilidade recíproca de quem não deixou nada por dizer ou fazer.

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Tentava descobrir por que se pegara lembrando daquela noite, quase quatro anos depois, na última madrugada antes de se mudar para o apartamento que alugou. Se não era por Débora, talvez fosse pela gata branca. Pela vontade de perguntar de novo, dessa vez sem saber que resposta procura:

- E agora, linda, que faço?

Ele não tem outra Débora no quarto, nem colchões no chão. Se o dinheiro ainda é contado, pelo menos dura até o final do mês e permite extravagâncias maiores do que ir à balada duas vezes por semana, bebendo três cervejas em cada noite. Divaga um pouco e conclui que quer saber de onde vem essa impressão de que as coisas eram melhores antes.

Se a gata estivesse ali, faria aquela cara de tédio felino e diria que a resposta era óbvia.

- Há quatro anos você morava na maior cidade do país, tinha certeza absoluta do próprio talento, amigos trabalhando nos principais jornais e uma moça linda te esperando no quarto, apesar daquele colchão horrível. Comparado a isso, usar o décimo-terceiro para comprar a mobília que falta para o apartamento recém alugado no interior de Santa Catarina sempre vai te parecer frustrante.

Como de costuma, ele faria de conta que não entendeu a resposta da gata. Seguiria levando em frente a vida que aconteceu, não a que escolheu. Para compensar, auto-concessões. Morar sozinho pela primeira vez, com banda larga e todos os canais telecine a disposição, por exemplo. Da mesma forma que, três anos e meio antes, comprou uma cama box de casal com o primeiro salário que recebeu.