Acompanhar uma reunião sobre zoneamento na Câmara de Vereadores, dar uma passadinha na Prefeitura para pegar uns papéis que poderiam render alguma coisa, correr para a redação a tempo de escrever a matéria. Ou seja, o planejamento era precário, mas existia. A vida é que não costuma respeitar planejamentos.
- Marcos, a gente pode dar uma passadinha na Prefeitura, pra eu pegar uns papéis? É rapidinho.
O motorista fez o retorno. A mudança na rota ia fazer a volta ao jornal demorar um pouquinho mais, mas ele não reclamou. Não devia ter ninguém esperando pelo carro. Toca o telefone.
- Oi?
- Você já viu o que a Cláudia escreveu?
- Como?
Era um tio ao telefone. Cláudia era a uma ex-namorada com quem não falava pessoalmente há algum tempo. O tio e ela nunca tinham se visto e mal sabiam um do outro, o que tornava tudo aquilo ainda mais estranho.
- Não tô sabendo de nada...
- Parece que ela acabou com o namorado. Colocou um texto na internet, fala coisas horríveis desse cara e de ti também. Tens que fazer alguma coisa...
- Ela acabou o namoro?
- O texto começa dizendo “Um era um cretino. O outro, um covarde” e depois disso é lama...
- Tem certeza de que ela acabou o namoro?
- É com isso que estás preocupado?
Era com isso que estava preocupado – embora essa não fosse a palavra exata. Preocupação não era o que sentia, na verdade. Não fazia sentido, mas se sentia feliz. Namorou Cláudia durante pouco tempo, três ou quatro anos atrás, quando morava em outra cidade. O final foi cheio de brigas, idas e vindas.
A mudança de cidade e o tempo fizeram com que as mágoas mútuas de fim de relação virassem algo contornável e eles voltaram a se falar esporadicamente. Até ficou feliz quando ela disse que estava namorando outro sujeito. Trocavam confidências sobre a vida que levavam e lembravam com carinho de coisas pontuais da época em que estavam juntos. Não conseguia entender aquele súbito alívio que sentiu quando soube que ela estava sozinha de novo.
- Ela escreveu que tu...
- Esquece “eu”, o que ela disse sobre ele? Como assim, acabou? Por quê?
- Mas, cara, ela escreveu coisas muito sérias aqui.
- Isso não importa! Olha só, tio, tenho que desligar. Tá uma correria danada aqui.
O carro tinha chegado à Prefeitura. Desceu, foi até o balcão, disse o que combinara e com quem. Indicaram o caminho, foi até lá, pegou um maço de documentos. Agradeceu, folheou, voltou para o carro. Tudo isso mecanicamente, é claro. Na cabeça, aquela história toda que o tio – por quê logo ele? – ligou para contar.
Lembrou da última vez que conversou com Cláudia. Ela se despediu dizendo para ele deixar a vida chata que andava levando na nova cidade enquanto não tivesse quem magoar. Ele brincou, disse que sempre dava um jeito de magoar alguém e riu. Ficou claro que Cláudia não achou muita graça, mas o assunto parou por ali.
Não lembrava quanto tempo tinha aquela última conversa. Duas semanas, um mês, mais? Pensou na preocupação do tio sobre o que ela disse no tal texto. Não conseguia imaginar o que poderia ser tão grave, se as atuais conversas eram tão agradáveis. Pelo menos para ele. “Um era um cretino. O outro, um covarde”, balbuciou.
O “covarde” que lhe coube estava na medida. Havia boas doses de covardia no quinhão de culpa dele pelo fim daquela história. Aceitava tranquilamente a pecha. Até voltava a se achar covarde por não aproveitar a pequena euforia que sentia por Cláudia estar sozinha como combustível para chutar tudo e fugir dali. Voltar para a velha cidade, a velha casa, os velhos braços – sem pensar muito em até que ponto isso era mesmo possível.
Mas o carro chegou ao jornal e ele tinha uma matéria para escrever. Depois de lead, sublead e da preocupação em reproduzir fielmente as frases dos vereadores, o impacto de tudo aquilo diminuiu. A ponto de começar a acreditar que talvez não houvesse acontecido telefonema nenhum – só um devaneio rápido, no caminho entre uma monótona reunião na Câmara e uma passada rápida na Prefeitura, para pegar uns papéis.
Que, no final das contas, nem rendiam matéria.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
As frases e a interinidade
Escolher as frases foi uma das coisas mais divertidas durante os 22 dias em que cobri Cláudio Prisco em sua coluna diária de política no jornal A Notícia. E olha que não foram poucas as coisas divertidas durante a interinidade. Pra registrar, coloco abaixo as 21 frases que foram publicadas. Um dia eu esqueci (acontece).
Na prática, acabei descobrindo que o pessoal de direita é muito melhor frasista que o de esquerda.
Seguem, em ordem de publicação.
Todo “otimista é um mal informado.
PAULO FRANCIS, jornalista e escritor.
O Brasil está como uma sopa na geladeira. Formou-se uma camada de gordura por cima que a torna intragável
LEONEL BRIZOLA, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul.
A impunidade gera a audácia dos maus.
CARLOS LACERDA, jornalista e ex-governador do Estado da Guanabara.
A internet fez mais pela democracia que qualquer pretenso revolucionário.
FERNANDO GABEIRA (PV), deputado federal e ex-revolucionário.
No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.
GETÚLIO VARGAS, ex-presidente da República (a frase na verdade é o Barão de Itararé e foi creditada de forma errada).
A senhora tem ideias boas e ideias novas. Pena que as boas não sejam novas e as novas não sejam boas.
ROBERTO CAMPOS, ex-ministro e ex-deputado, em debate com a economista Maria da Conceição Tavares.
Intimidade gera filhos ou aborrecimentos.
JÂNIO QUADROS, ex-presidente, em resposta a uma repórter que o chamou de “você”.
O político de carreira é aquele que faz de cada solução um problema.
WOODY ALLEN, cineasta americano.
O Brasil não precisa apenas de um choque fiscal. Precisa, também, de um choque de capitalismo, um choque de livre iniciativa, sujeita a riscos e não apenas a prêmios.
MÁRIO COVAS, ex-senador e ex-governador de São Paulo, quando disputou a presidência pelo PSDB, em 1989.
A diferença entre uma“ democracia e uma ditadura consiste em que numa democracia se pode votar antes de obedecer as ordens.
CHARLES BUKOWSKI, escritor americano, morto em 1994.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
APARÍCIO TORELLY, humorista conhecido como Barão de Itararé.
Autodidata é um ignorante por conta própria.
MÁRIO QUINTANA, escritor gaúcho, morto em 1994.
Sou um comunista revolucionário, por favor!
LUIZ CARLOS PRESTES, em 1989, ao ser chamado de “líder socialista”.
Um governo forte se faz perdoando.
JUSCELINO KUBITSCHEK, presidente da República entre 1956 e 1971, morto em 1976.
No dia em que voltar a ser candidato, pode me colocar em uma camisa-de-força.
ANTONIO ERMÍRIO DE MORAIS, empresário, relembrando a disputa pelo governo paulista em 1986. Ele fi cou em segundo lugar, atrás de Orestes Quércia.
A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.
HUMBERTO CASTELLO BRANCO, primeiro presidente do regime militar iniciado em 1964.
Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
NELSON RODRIGUES, jornalista e dramaturgo.
A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim, às vezes erra.
ITAMAR FRANCO, ex-presidente da República.
Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.
MAGALHÃES PINTO, ex-governador de Minas Gerais, morto em 1996.
A esquerda tem o velho hábito de só ler aqueles livros que já concordam com as ideias que ela tem.
CAETANO VELOSO, cantor e compositor.
PAULO FRANCIS, jornalista e escritor.
O Brasil está como uma sopa na geladeira. Formou-se uma camada de gordura por cima que a torna intragável
LEONEL BRIZOLA, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul.
A impunidade gera a audácia dos maus.
CARLOS LACERDA, jornalista e ex-governador do Estado da Guanabara.
A internet fez mais pela democracia que qualquer pretenso revolucionário.
FERNANDO GABEIRA (PV), deputado federal e ex-revolucionário.
No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.
GETÚLIO VARGAS, ex-presidente da República (a frase na verdade é o Barão de Itararé e foi creditada de forma errada).
A senhora tem ideias boas e ideias novas. Pena que as boas não sejam novas e as novas não sejam boas.
ROBERTO CAMPOS, ex-ministro e ex-deputado, em debate com a economista Maria da Conceição Tavares.
Intimidade gera filhos ou aborrecimentos.
JÂNIO QUADROS, ex-presidente, em resposta a uma repórter que o chamou de “você”.
O político de carreira é aquele que faz de cada solução um problema.
WOODY ALLEN, cineasta americano.
O Brasil não precisa apenas de um choque fiscal. Precisa, também, de um choque de capitalismo, um choque de livre iniciativa, sujeita a riscos e não apenas a prêmios.
MÁRIO COVAS, ex-senador e ex-governador de São Paulo, quando disputou a presidência pelo PSDB, em 1989.
A diferença entre uma“ democracia e uma ditadura consiste em que numa democracia se pode votar antes de obedecer as ordens.
CHARLES BUKOWSKI, escritor americano, morto em 1994.
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
APARÍCIO TORELLY, humorista conhecido como Barão de Itararé.
Autodidata é um ignorante por conta própria.
MÁRIO QUINTANA, escritor gaúcho, morto em 1994.
Sou um comunista revolucionário, por favor!
LUIZ CARLOS PRESTES, em 1989, ao ser chamado de “líder socialista”.
Um governo forte se faz perdoando.
JUSCELINO KUBITSCHEK, presidente da República entre 1956 e 1971, morto em 1976.
No dia em que voltar a ser candidato, pode me colocar em uma camisa-de-força.
ANTONIO ERMÍRIO DE MORAIS, empresário, relembrando a disputa pelo governo paulista em 1986. Ele fi cou em segundo lugar, atrás de Orestes Quércia.
A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.
HUMBERTO CASTELLO BRANCO, primeiro presidente do regime militar iniciado em 1964.
Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
NELSON RODRIGUES, jornalista e dramaturgo.
A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim, às vezes erra.
ITAMAR FRANCO, ex-presidente da República.
Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.
MAGALHÃES PINTO, ex-governador de Minas Gerais, morto em 1996.
A esquerda tem o velho hábito de só ler aqueles livros que já concordam com as ideias que ela tem.
CAETANO VELOSO, cantor e compositor.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Período pré-eleitoral
Quando ele entrou no ônibus, reconheci de cara e levei um susto. Na última vez que o vira, estava no palácio do governo. O governador reeleito assumira poucos dias antes e ainda não completara a equipe. Ele estava lá, representando o partido. Cochichava na ante-sala com outros três políticos “partido de si mesmo”, enquanto no gabinente os tubarões repartiam o governo entre si.
A colega do jornal concorrente até juntou os três para uma foto, que rendeu uma nota divertida. “Nós também ajudamos a eleger o governador”, repetiam. Com tanta convicção que por um momento esquecíamos que os candidatos daquelas siglas estranhas teriam dificuldade para se elegerem vereadores em pequenas cidades.
Mas em meio aqueles semi-anônimos, ele era um quase conhecido. Era veterano de outras eleições – governo, prefeitura. Sempre do mesmo jeito. Candidatura isolada por partido nanico, apoio ao cavalo vencedor no segundo turno, tentativa de emplacar um cargo no segundo ou terceiro escalão em janeiro.
Agora, ali no ônibus, símbolo de uma jogada que não deu certo.
Se era ele mesmo, claro.
A colega do jornal concorrente até juntou os três para uma foto, que rendeu uma nota divertida. “Nós também ajudamos a eleger o governador”, repetiam. Com tanta convicção que por um momento esquecíamos que os candidatos daquelas siglas estranhas teriam dificuldade para se elegerem vereadores em pequenas cidades.
Mas em meio aqueles semi-anônimos, ele era um quase conhecido. Era veterano de outras eleições – governo, prefeitura. Sempre do mesmo jeito. Candidatura isolada por partido nanico, apoio ao cavalo vencedor no segundo turno, tentativa de emplacar um cargo no segundo ou terceiro escalão em janeiro.
Agora, ali no ônibus, símbolo de uma jogada que não deu certo.
Se era ele mesmo, claro.
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