terça-feira, 24 de agosto de 2010

Microconto

Ela disse que passou a noite comendo azeitona, bebendo vodka e jogando poker com quatro amigos gays.

Eu nunca fiz nada tão masculino na vida.

Mas ela sempre foi mesmo o homem da relação.

Mulheres 05

- Mas ele não namora aquela menina que foi lá em casa?
- Teu irmão é assim mesmo.

Ouviu o diálogo entre a mãe o irmão mais novo enquanto beijava a turista espanhola que acabara de conhecer. Eles falavam da namorada dele, que estava longe dali e era traída pela primeira vez. Naquele bar, na beira da praia, ouvindo uma banda improvisada, naquela noite de verão, um beijo significava mais do que ele esperava.

A espanhola estava hospedada na casa de uma amiga da mãe do rapaz. Ele se interessou de pronto, puxou conversa, teve receptividade. Horas antes, disse à namorada que ia passar o final de semana na casa da mãe, na praia. Era o plano, mas a verdade é que queria ficar um pouco longe dela, um pouco escondido de tudo. A mãe o levou pro bar onde, em meio àqueles quarentões, havia uma única jovem.

Beijaram-se. Ela iria embora dali dois dias. Combinaram de tentar se encontrar mais uma vez, mas sabiam que era só aquilo mesmo. Para ela, não significava nada. Para ele, era a certeza de que o namoro, que ainda duraria uns dois meses, tinha acabado.

sábado, 21 de agosto de 2010

Resgate

Lá pelas bandas de 2000, eu e uns colegas tínhamos um fanzine chamado Cabron. Tava com saudades daquela época e, principalmente, de shows da Bidê ou Balde. Aí resgatei isso. É bom pra ver que a gente espera bem menos de tudo quando se é guri.

Fechando um ciclo - Bidê ou Balde em Vacaria (RS)

Quando o vocalista Carlinhos Carneiro cantou o refrão de Eu te amo Lucinda, bem na hora do "não olha pra trás", o segurança virou a cabeça e olhou. Ele queria ver Vivi, a vocalista de saia curta e gestos provocativos. Até as coincidências são mais divertidas nos shows da Bidê ou Balde. Mesmo que o show aconteça numa véspera de natal, que a cidade seja Vacaria (RS), o local se chame Clube do Comércio, o público tenha média de 15 anos de idade e pareça meio deslocado da festa.

Com todos esses detalhes de data, público e localização, pode parecer que o show tenha sido morno, burocrático. Pelo contrário, a banda parecia disposta a conquistar aquele público estranho. Antes de começar a cantar, Carlinhos começou um discurso non-sense, explicando que a data 25/12 não tinha nada a ver com o nascimento de Cristo, que era data de uma festa pagã, escolhida aleatoriamente quando foi estabelecido o calendário Gregoriano. Mesmo sendo non-sense era um discurso perigoso para uma cidade católica como Vacaria (pra dar uma dimensão da tragédia basta dizer que algumas horas antes do show uma missa foi realizada numa das igrejas da cidade e transmitida ao vivo num telão para a outra). Apesar do discurso - interrompido pela metade quando a banda começou a tocar e o vocalista a pular - pode-se dizer que a Bidê ou Balde conquistou aquela parcela da juventude vacariense. Pelo menos a guria que estava ao meu lado olhava incrédula e repetia: "Esses caras são muito loucos..."

Pra quem já conhecia, foi o show divertido de sempre. Serviu para constatar que as músicas inéditas do disco Pra onde voam os ventiladores de teto no inverno? (que veio junto com uma Revista Atlântida) são ainda melhores ao vivo - como todas da Bidê ou Balde, por sinal. Matelassê foi a música mais divertida da noite (pena que apenas o colunista e alguns gatos pingados a conheciam). No repertório também havia outra inédita, que estará no próximo cd da banda. Graças à excelente acústica do Clube do Comércio, não foi possível entender porra nenhuma da música. As covers escolhidas da noite foram Song 2 (Blur) e Independente Futebol Clube (Utraje a Rigor, cantada só pelas meninas).

É provável que o show da Bidê ou Balde seja o melhor do Brasil na atualidade. Se é gostoso pular alucinado com a combinação de guitarras pesadas e refrões xalalá da banda, melhor ainda é assistir a Bidê ou Balde caminhando para o auge e se divertindo em cima do palco - tanto ou mais que próprio público. Seja em Atlântida, Porto Alegre, Floripa, São Paulo ou Vacaria.

PS. Foi exatamente no natal do ano passado, exatamente em Vacaria, que eu comprei o disco da Bidê ou Balde. Por isso estava meio emocionado quando escrevi. Desculpem qualquer coisa.)

(publicado no Cabron nº 10)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Papo Bibelô

- Conhece fulana?
- Bebi muito.
- Como assim?
- Enchemos a cara um par de vezes, mas nunca comi.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Últimas palavras

- E isso que você toma não é chá. É aguá quente doce e colorida!

Disse isso e bateu a porta, para nunca mais voltar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Tweet fixo 01

Metade dos emails que recebo são convites para festas. O resto é lixo.

sábado, 7 de agosto de 2010

Juliet

Alguns dos melhores momentos da música pop são feitos por canções que fazem pensar em si mesmo e se divertir ao mesmo tempo. A gente reflete quando pensa estar só se divertindo, se diverte quando pensa que está apenas chorando refrãos na madrugada. Livros do Nick Hornby têm efeito parecido.

O nariz de cera é pra dizer que terminei hoje o "Juliet, nua e crua", mais recente romance do escritor britânico. E para dizer que ele conseguiu de novo. Se ainda não alcançou "Alta Fidelidade" e "Um Grande Garoto", dá para dizer que chegou mais perto. E me fez esquecer a decepção com "Slam". Hornby voltou a dar voz àqueles adultos com hábitos de moleque ou com dificuldade de fazer com que a vida ande no fuso indicado pelo relógio biológico.

Admito, isso me toca. Embora eu esteja bem longe de ser adulto.

ps. Puta vontade de ouvir Juliet, do Tucker Crowe.

domingo, 1 de agosto de 2010

Terrorismo

Na história dos dois
ele foi homem-bomba duas vezes.
Primeiro, quando deu fim a tudo
em troca de promessas
de mil virgens, leite e mel.
Depois, quando explodiu
o pouco que restou.

Por pura raiva da civilização judaico-cristã ocidental.