Precisou de apenas meia dúzia de palavras e um informação para ele descobrir que era machista, possessivo e mesquinho como nunca imaginou ser. Agora ele bebe tudo que pode para esquecer o que teve, o que perdeu e o que poderia ter se souber ter jogado com as possibilidades.
Nunca foi tão dificil perder alguém. Nunca doeu tanto.
Essa seria a história mais bonita que poderia ser contada nesse blog.
E deu tudo errado.
sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Segredo
Sua vida sentimental consistia em se fingir de cachorro que caiu da mudança para morder as canelas de quem acreditava. Às vezes, funcionava.
terça-feira, 27 de julho de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Triangular
Augusto quer namorar Ana, que é apaixonada por Pedro, que vê nela apenas sexo casual. Esse é o começo e o fim da história. Falta ao narrador vontade de desenvolver os personagens. Primeiro porque a história é clichê. Todo mundo conhece alguém metido nesse tipo de triângulo, quando não está propriamente envolvido nele. Às vezes uma mesma pessoa participa de mais de um triângulo, em diferentes papeis. Um clichê.
Segundo, porque a história é triste.Triste porque Augusto e Ana não vão namorar e ele, depois de algumas cabeçadas, vai dar uma chance a alguém de quem nem gosta tanto. E vai ser uma merda. Triste porque Ana vai perder muito tempo achando que pode fazer Pedro apaixonar-se também, passo a passo. Algo que nunca acontece. Triste porque Pedro nunca vai perceber a mulher que tem, literalmente, nas mãos.
Melhor contar outra história.
Segundo, porque a história é triste.Triste porque Augusto e Ana não vão namorar e ele, depois de algumas cabeçadas, vai dar uma chance a alguém de quem nem gosta tanto. E vai ser uma merda. Triste porque Ana vai perder muito tempo achando que pode fazer Pedro apaixonar-se também, passo a passo. Algo que nunca acontece. Triste porque Pedro nunca vai perceber a mulher que tem, literalmente, nas mãos.
Melhor contar outra história.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Mulheres 03
Sabem o espírito do natal passado, do conto do Charles Dickens? Ela tinha se tornado algo parecido na noite da cidade. Quando aparecia, evocava imediatamente as lembranças de noites que pareciam que nunca iam acabar. Até porque elas não costumavam acabar mesmo. Não acabaram, mas ficaram em algum lugar distante e - ao mesmo tempo - presas ao corpo da garota, cada vez mais inconformada com o papel de belo retrato vivo de uma época. Dorian Grey de noites infinitas.
Como que por vingança, ela mudou de hábitos, trocou de noites. Mas volta e meia aparecia, principalmente àqueles que como eu, nunca lhe souberam dizer não. Podia ser uma inesperada aparição no balcão do bar no dia da festa que parecia ser a mais chata do mês - e que em duas músicas, três gargalhadas e bem mais que quatro doses deixava de ser. Ou então tocando o interfone no início da madrugada para fazer dela uma longa tentativa de contar todos os dramas, revelar todos os sonhos e esvaziar todas as garrafas.
Esse dom de surgir ineperadamente e mudar todos os contextos eu chamei de "borboletear". Foi isso que ela foi fazer longe daqui, cansada de ser o espírito do natal passado. Foi para onde o nome o sobrenome, dupla explosiva, signifiquem menos. Ou possam ganhar novos significados.
Para quem ficou, cresceu a dificuldade de lembrar que houve um tempo em que as noites não acabavam e que tudo era possível naquele porão que virou pista de dança, entre outros lugares semelhantes. Somada a essa dificuldade, a expectativa de que vez ou outra ela apareça no balcão para transformar a festa chata ou volte a aparecer do nada, no começo da madrugada, perguntando para quem não lhe sabia dizer não:
- Posso ir para aí? O que você tem para beber?
Como que por vingança, ela mudou de hábitos, trocou de noites. Mas volta e meia aparecia, principalmente àqueles que como eu, nunca lhe souberam dizer não. Podia ser uma inesperada aparição no balcão do bar no dia da festa que parecia ser a mais chata do mês - e que em duas músicas, três gargalhadas e bem mais que quatro doses deixava de ser. Ou então tocando o interfone no início da madrugada para fazer dela uma longa tentativa de contar todos os dramas, revelar todos os sonhos e esvaziar todas as garrafas.
Esse dom de surgir ineperadamente e mudar todos os contextos eu chamei de "borboletear". Foi isso que ela foi fazer longe daqui, cansada de ser o espírito do natal passado. Foi para onde o nome o sobrenome, dupla explosiva, signifiquem menos. Ou possam ganhar novos significados.
Para quem ficou, cresceu a dificuldade de lembrar que houve um tempo em que as noites não acabavam e que tudo era possível naquele porão que virou pista de dança, entre outros lugares semelhantes. Somada a essa dificuldade, a expectativa de que vez ou outra ela apareça no balcão para transformar a festa chata ou volte a aparecer do nada, no começo da madrugada, perguntando para quem não lhe sabia dizer não:
- Posso ir para aí? O que você tem para beber?
Mulheres 02
Ela perguntou se aquele banheiro era o feminino. Não era. Ele já estava de saída. Do lado de fora, uma das primeiras baladas que conheceu em São Paulo. E uma das que mais lembra. Principalmente por noites como aquela. Era esperado por alguém na pista e a garota parecia ainda não ter entendido que banheiro era aquele - como se importasse. Era masculino, ele riu e disse, enquanto lavava as mãos. A garota o beijou e ele não entendeu nada, mas gostou. Entendeu menos ainda quando ela disse "me espera aqui que eu já volto". Era muito para aquele rapaz recém apresentado à noite paulistana.
Deixou o banheiro assim que ela saiu. E nunca soube o que valeria aquela espera.
Deixou o banheiro assim que ela saiu. E nunca soube o que valeria aquela espera.
sábado, 17 de julho de 2010
Mulheres 01
Ela tem cheiro de terra. Não é o que se espera falar de alguém que você conhece nas noites e madrugadas barulhentas e movidas a cerveja de garrafa verde. Mas ela tem. Mais que isso, ela tem algo que me atrai e me repele ao mesmo tempo. Não sei se é o cheiro de terra, igual ao que sentia no inverno de Vacaria. Aquela terra escura do interior do Rio Grande do Sul que não se encontra nas capitais - principalmente as insulares. Talvez seja o enigma que ela parece ser.
Entre a atração e a repulsa, ficam os olhares, sorrisos e poucas palavras. Nunca vai passar disso.
Entre a atração e a repulsa, ficam os olhares, sorrisos e poucas palavras. Nunca vai passar disso.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Mudar
Uma foto roubada do álbum do Blues Velvet no orkut inspirou algumas mudanças no layout do blog. A intenção é antiga. Repaginar é divertido e eu estava achando isso aqui muito sem graça. Mas o principal motivo da mudança era dar um descanso aos meus 17 anos, representados pela foto quadruplicada e colorizada que ficada ali à direita. Quando vi a foto do Carlos G.H, batida na terça-feira, tive certeza de que era a imagem certa pra marcar uma fase. Um crachá de jornal faria a foto ser uma biografia.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Princesa do drama
(ela sonha, ele tenta fazer do sonho um texto)
Estava loira e não havia nada de estranho nisso. Como também não havia naquele longo vestido rosa cheio de babados, na coroa discreta e em ser insistentemente chamada de “princesa” em plena avenida Madre Benvenuta. Se ela era a princesa Aurora, porque haveria algo de estranho em tudo isso?
Se distraiu pensando na estranheza e na falta dela quando foi interrompida por Stacy. A amiga tinha pressa porque as duas precisavam ir até a Fefelech, onde o príncipe Felipe disputaria um duelo importantíssimo. Aurora não conseguia lembrar o porquê da importância do duelo, mas sabia que teria um papel decisivo nele. Tão importante que se deixou um bilhete para lembrar. Estava no banco do ponto de ônibus perto das Casas do Cano. Por isso ela estava na Madre Benvenuta ainda.
Estava lá, num post it colado ao lado de um anúncio de cachorro perdido. Era um feitiço de cura. Ela só precisaria dizer a frase escrita no bilhete. Para isso precisava estar no duelo, pronta para qualquer eventualidade. Balbuciou a frase três vezes, guardou o bilhete e partiu para a Fefelech, que ficava perto, no final da avenida.
Aurora e Stacy apressaram o passo. A amiga não parava de falar sobre o feitiço, feito pelo mago Merlin. E não parava de falar do tal mago, quase com devoção. Enquanto ela falava, a princesa se distraía mais uma vez pensando em quanto a amiga lembrava uma atriz de seriado que ela não conseguia lembrar qual era.
Foi quando viram Felipe, o príncipe, também de passo apressado, estranhamente sem cavalo. Quando as viu, perguntou se elas sabiam onde ele poderia conseguir uma espada para o duelo. Aurora não conseguia reconhecer o príncipe, mas se sentia muito ligada a ele. Divagou nos pensamentos, enquanto Stacy reclamava que era um absurdo um príncipe ir sem espada para um duelo, que por sorte Merlin estaria lá e emprestaria uma.
O príncipe decidiu ir correndo na frente. Aurora e Stacy até iriam, não fossem os longos vestidos atrapalhando. Antes que ele corresse, a princesa pegou um post it colado em uma das lixeiras azuis da calçada. Leu para o príncipe Felipe uma mensagem de incentivo para o duelo que se aproximava. Esses pequenos bilhetes sempre salvam Aurora quando ela não sabe o que dizer. Não é fácil ser princesa.
As duas chegaram com um pouco de atraso. Aurora confundiu a Fefelech com a empresa de telefonia e teimou com Stacy para que entrassem. A amiga, contrariada, não quis contrariar a princesa. Chegaram ao local do duelo quando ele já começara.
Além de não saber o motivo do duelo, Aurora também não sabia quem era aquele outro príncipe, quem ele defendia. O que deu para perceber é que Felipe estava levando a pior na luta de espadas. Procurou Stacy para assistir o confronto de mão dada com ela, mas ela conversava animadamente com Merlin.
Saiu da nova distração ao ouvir um grito de dor. De Felipe. Um golpe de espada do adversário fez o príncipe cair inerte no chão. Aurora correu desesperada até ele. Em meio ao sangue do príncipe, ela começou a chorar. Ao lado, também machucada – sabe-se lá como – Stacy gritou que ela deveria usar o feitiço de cura. Aurora procurou o post it com a frase que ela deveria dizer para colocar a magia em ação. Esquecera as palavras que tentou decorar no ponto de ônibus e não achava a porcaria do papel.
Começou a chorar mais ainda, pensando que aquele destrambelhamento todo ia causar a morte do príncipe, tão especial para ela, e da amiga mais querida. Decidiu voltar ao ponto de ônibus, no começo da Madre Benvenuta, atrás do bilhete. Foi contida por um novo grito de Stacy, que lembrava as mágicas palavras que a princesa esquecera. Aurora correu para Felipe e falou com convicção:
- Seu coração é o meu coração!
O príncipe continuou inerte, continuou banhando em sangue.
- Seu coração é o meu coração! Seu coração é o meu coração!
Repetiu inúmeras vezes aquela frase simples e nenhuma reação vinha do corpo do príncipe. Chorava desesperadamente. Pelo reino, em perigo com a morte do príncipe. Pelo príncipe, que parecia tão importante. Por ela, princesa, tão desprotegida no campo de batalha. Por ela, Aurora, porque parecia ser o certo a fazer. E por ela, nem princesa nem Aurora, que pedia um pouco daquele choro para si.
- Não sei por que você está assim, é só um jogo – disse Stacy, em pé, restabelecida e estranhamente indiferente.
Ao final daquelas palavras, o príncipe Felipe se levantou e saiu andando, como se nada tivesse acontecido. Stacy fez o mesmo, de mãos dadas com o ex-Merlin. Foi quando ela percebeu que não era princesa, que não era Aurora, que não era loira.
Naquele mesmo instante teve a certeza absoluta de quem era e de quem não era.
E parou de chorar.
Estava loira e não havia nada de estranho nisso. Como também não havia naquele longo vestido rosa cheio de babados, na coroa discreta e em ser insistentemente chamada de “princesa” em plena avenida Madre Benvenuta. Se ela era a princesa Aurora, porque haveria algo de estranho em tudo isso?
Se distraiu pensando na estranheza e na falta dela quando foi interrompida por Stacy. A amiga tinha pressa porque as duas precisavam ir até a Fefelech, onde o príncipe Felipe disputaria um duelo importantíssimo. Aurora não conseguia lembrar o porquê da importância do duelo, mas sabia que teria um papel decisivo nele. Tão importante que se deixou um bilhete para lembrar. Estava no banco do ponto de ônibus perto das Casas do Cano. Por isso ela estava na Madre Benvenuta ainda.
Estava lá, num post it colado ao lado de um anúncio de cachorro perdido. Era um feitiço de cura. Ela só precisaria dizer a frase escrita no bilhete. Para isso precisava estar no duelo, pronta para qualquer eventualidade. Balbuciou a frase três vezes, guardou o bilhete e partiu para a Fefelech, que ficava perto, no final da avenida.
Aurora e Stacy apressaram o passo. A amiga não parava de falar sobre o feitiço, feito pelo mago Merlin. E não parava de falar do tal mago, quase com devoção. Enquanto ela falava, a princesa se distraía mais uma vez pensando em quanto a amiga lembrava uma atriz de seriado que ela não conseguia lembrar qual era.
Foi quando viram Felipe, o príncipe, também de passo apressado, estranhamente sem cavalo. Quando as viu, perguntou se elas sabiam onde ele poderia conseguir uma espada para o duelo. Aurora não conseguia reconhecer o príncipe, mas se sentia muito ligada a ele. Divagou nos pensamentos, enquanto Stacy reclamava que era um absurdo um príncipe ir sem espada para um duelo, que por sorte Merlin estaria lá e emprestaria uma.
O príncipe decidiu ir correndo na frente. Aurora e Stacy até iriam, não fossem os longos vestidos atrapalhando. Antes que ele corresse, a princesa pegou um post it colado em uma das lixeiras azuis da calçada. Leu para o príncipe Felipe uma mensagem de incentivo para o duelo que se aproximava. Esses pequenos bilhetes sempre salvam Aurora quando ela não sabe o que dizer. Não é fácil ser princesa.
As duas chegaram com um pouco de atraso. Aurora confundiu a Fefelech com a empresa de telefonia e teimou com Stacy para que entrassem. A amiga, contrariada, não quis contrariar a princesa. Chegaram ao local do duelo quando ele já começara.
Além de não saber o motivo do duelo, Aurora também não sabia quem era aquele outro príncipe, quem ele defendia. O que deu para perceber é que Felipe estava levando a pior na luta de espadas. Procurou Stacy para assistir o confronto de mão dada com ela, mas ela conversava animadamente com Merlin.
Saiu da nova distração ao ouvir um grito de dor. De Felipe. Um golpe de espada do adversário fez o príncipe cair inerte no chão. Aurora correu desesperada até ele. Em meio ao sangue do príncipe, ela começou a chorar. Ao lado, também machucada – sabe-se lá como – Stacy gritou que ela deveria usar o feitiço de cura. Aurora procurou o post it com a frase que ela deveria dizer para colocar a magia em ação. Esquecera as palavras que tentou decorar no ponto de ônibus e não achava a porcaria do papel.
Começou a chorar mais ainda, pensando que aquele destrambelhamento todo ia causar a morte do príncipe, tão especial para ela, e da amiga mais querida. Decidiu voltar ao ponto de ônibus, no começo da Madre Benvenuta, atrás do bilhete. Foi contida por um novo grito de Stacy, que lembrava as mágicas palavras que a princesa esquecera. Aurora correu para Felipe e falou com convicção:
- Seu coração é o meu coração!
O príncipe continuou inerte, continuou banhando em sangue.
- Seu coração é o meu coração! Seu coração é o meu coração!
Repetiu inúmeras vezes aquela frase simples e nenhuma reação vinha do corpo do príncipe. Chorava desesperadamente. Pelo reino, em perigo com a morte do príncipe. Pelo príncipe, que parecia tão importante. Por ela, princesa, tão desprotegida no campo de batalha. Por ela, Aurora, porque parecia ser o certo a fazer. E por ela, nem princesa nem Aurora, que pedia um pouco daquele choro para si.
- Não sei por que você está assim, é só um jogo – disse Stacy, em pé, restabelecida e estranhamente indiferente.
Ao final daquelas palavras, o príncipe Felipe se levantou e saiu andando, como se nada tivesse acontecido. Stacy fez o mesmo, de mãos dadas com o ex-Merlin. Foi quando ela percebeu que não era princesa, que não era Aurora, que não era loira.
Naquele mesmo instante teve a certeza absoluta de quem era e de quem não era.
E parou de chorar.
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