sábado, 28 de maio de 2011

O humor em 2011 d.C

Diminuiu um pouco o passo apressado quando ouviu alguém falando alto na entrada do pequeno hotel que dava para a calçada. Um homem contava uma história que parecia interessante a outros dois que riam. Conseguiu pegar apenas a última frase e a gargalhada em uníssono.

- Aí eu disse: "traz o exame. Se for minha, eu assumo. Se não for, eu como."

Reapressou o passo, mas não pôde deixar de dar um um leve sorriso. Pelo pedaço da história que ouviu, até poderia ser um relato, mas tinha todo jeito de ser alguma velha anedota que o desenlace se encarregou de preencher o início que não conseguira escutar.

Antes de chegar em casa, ainda pensou que se o cara tivesse feito a mesma piada no Twitter, tava fodido.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mulheres 08

- Acorda, tu precisa ir embora!

A frase insistente começou a fazer sentido junto com a luz que entrava no quarto. O que não fazia sentido era o quarto, a mulher que o acordava, a própria nudez. Mas a insistência dela quanto à urgência da saída impedia a realização de perguntas que até seriam óbvias – embora parte delas não fosse educado fazer. Melhor fingir controle da situação enquanto procurava cueca, meias, calça, camiseta e ela dava uma explicação vaga sobre porque ele precisava ir embora correndo antes das oito horas da manhã.

Foi no elevador que começou a reconstruir o que acontecera. O final da festa, a conversa breve e sem sentido, o beijo, a descoberta de que ambos moravam em lugares próximos, o convite pra uma cerveja que ficou pela metade, testemunha das primeiras peças de roupa que caíram. 

Estava perto de casa, pelo menos.

Um dia, quem sabe, lembrasse o nome da garota.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pode vir, Saturno


Se eu voltasse dez anos no tempo e encontrasse aquele Upiara que estava entrando na segunda metade do curso de jornalismo, não iria me aproximar. Mesmo que batesse uma pequena tentação de chegar ao ouvido dele e dizer “aprende forró, vai ser útil”. Até porque sei que ele não aceitaríamos.

Eu também poderia ir para perto dele e, displicentemente, colocar naquela pasta branca encardida uma lista das garotas em que valia a pena investir ou evitar. Seria bem útil naquele momento, mas talvez estragasse o que veio a longo prazo e valeu tanto a pena. Vai saber.

Mas a verdade é que se eu encontrasse aquele Upiara de 19 anos – tão bobo, inexperiente e absolutamente certo do próprio talento – e fosse obrigado a falar com ele, diria apenas “não te preocupa e faz o que achar melhor”.

O guri acertou mais do que errou. Dez anos depois, Saturno pode vir que eu não me sinto devendo nada pra ele.

(mas se for o Itaú, eu fujo)