sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Não mais

levo uma vida
que nem eu aquento mais
não, carlos, não quero me matar
quero uma ruptura
uma vida nova
um jeito novo de viver
estou cansado de mim
e feliz por ter te apartado
da minha confusão

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Centroavante

Mais do que a velocidade, foi a timidez que me levou para os lados do campo. O lado direito, para ser mais exato - como o Renato que vi jogar em Vacaria numa passagem fugaz por um Grêmio sem brilho, como o Garrincha da biografia que li aos 13 anos de idade. Eu era pequeno, magro e rápido. Nos lados do campo, estava protegido das trombadas centrais, participava do jogo de forma pontual, tentava ajudar outros a fazerem o gol. O protagonismo eu deixava para quem estava disposto a sofrer por ele.


Era assim fora do campo também.


Um dia, no entanto, eu já não era mais tão mocinho, não estava num campinho de bairro em Vacaria. Estava jogando com colegas de universidade, na Florianópolis que adotei. Em campo, continuava franzino e tímido, fugindo dos choques e das pernas na correria. Um coadjuvante esforçado e veloz na minha querida ponta-direita. Até alguém dizer, não lembro quem, para eu ficar centralizado na frente.


Cheguei àquela parte inóspita e quase desconhecida do campo como quem entra em um lugar sagrado. A centroavância. O lugar dos que querem ser protagonistas, dos que esperam pela bola, dos que encaram travas, chuteiras, canelas, o que for. Estufei o peito, senti que era centroavante. Abri os braços, de costas para o gol - uma sensação nova. Tudo que acontecia no jogo deveria desembocar em mim. E eu deveria estar pronto para corresponder, para decidir.


Não lembro se a bola chegou. Certamente não fiz gols. Lembraria. Mas nunca esqueci aquela sensação de comando. De estar no centro e esperar para ser servido. Deve ser assim o mundo dos que não são tímidos, não pensei, mas senti.


Quis ser assim fora do campo também.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Comportar-se

Não me comporto.
Comportar é caber
A carreta comporta centenas de quilos
O navio, toneladas
Eu não comporto nem a mim mesmo
Comportar-se é caber em si
Eu não caibo em mim
Não me comporto

(Para Samanta)

sábado, 28 de abril de 2018

As 9 coisas que me tiravam o sono em 2014

Achei um antigo bilhete para mim mesmo. Uma lista escrita em uma madrugada de 2014, não sei em que momento, sobre nove coisas que me incomodavam na vida que levava. Decidi postar para marcar dar um tom de otimismo aos textos aqui do blog, porque quase tudo melhorou. O título da lista era "9 coisas que me tiram o sono". Vamos a elas, comentadas:

1) O dinheiro que me pagam por um trabalho que considero qualificado embora relapso. (melhorou bastante)

2) Um relacionamento que quanto mais me parece esgotado, mais confortável fica. (resolvido sem dor, sem mágoas, com muito carinho)

3) Paixões platônicas semanais, eventualmente quinzenais, raramente mensais. (agora elas ficam sabendo, pelo menos)

4) Envelhecer, ter saudade, sentir medo de que as coisas não possam mais ser recuperadas. (descobri que tudo que vale a pena é recuperável)

5) A distância entre o planejado e o vivido. (diminuiu muito)

6) A necessidade de reconhecimento. (melhorou muito)

7) 13 anos sem título relevante do Grêmio. (é campeão!)

8) A vontade de escrever algo consistente, duradouro, que inicie uma obra. (ainda sinto, mas incomoda menos)

9) A vontade de começar tudo de novo, longe daqui. (Florianópolis é minha casa)

sábado, 14 de abril de 2018

Eu me sinto solitário quando bebo

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo
E faz lembrar que estou só

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo
E faz lembrar que estou só
Na noite que não é mais minha

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Texto perdido em um velho email

Pesquisar velhos emails é o novo remexer gavetas. Uma lembrança súbita me levou a vasculhar mensagens trocadas lá por 2009 e encontrei um texto meu que soou inédito até para mim. Lembro vagamente de quando escrevi, acho que foi alguns anos antes. Vou chutar 2007. Vai ser o título. Deu saudade de escrever, deu saudade do cenário, deu saudade até de quem recebeu o email.

2007
Ela não disse last nite
Porque os dois já sabem
Beijam como se fosse mais um gole
Uma tragada no cigarro de alguém
Só parte da festa, da noite
Beijo, fumaça, Heineken
Take me out, diz o refrão
E outra menina parece que deseja
Sair da pista, na contramão
Are you gonna be my girl?
Ela bebe, jura que sim
Anota um telefone no papel
Ele não disse last nite
Porque os dois já sabem


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Pequenas criaturas (Rubem Fonseca)

É possível que Rubem Fonseca seja o escritor que mais li, uma espécie de bola de segurança. Desde 1998, por causa de O Cobrador na lista do vestibular (pelo menos é assim que lembro e não estou querendo brigar com memórias agora), é difícil passar um ano sem ler algum Fonseca. Falhei ano passado. Fiquei tão decepcionado com O Seminarista em 2016 que acabei esquecendo Pequenas Criaturas na estante dos não lidos por mais tempo do que ele merecia.

O título é um achado. As pequenas criaturas podem ser os 31 breves contos ou os 31 protagonistas das histórias, unidos todos por um senso de inadequação. Um sentimento sempre em busca de uma válvula de escape: sexo, vingança a escolha inútil  entre uma dentadura e uma cadeira de rodas. 

Escrevi sobre inadequação há pouco tempo no Twitter, aquela rede em que a gente faz de conta que escrevemos para nós mesmos. Eram 4h da manhã e chegava a hora de ir embora sozinho do bar, já era 31 de dezembro e eu não sabia como ia virar o ano. Em uma noite que me angustiou mais do que divertiu, como tantas festas, como tantas noites, apresentei um desejo de ano novo em tons pessimistas:

Eu gostaria que em 2018 não me sentisse mais inadequado, não me sentisse mais no lugar errado. Gostaria que fizesse sentido o onde e o com quem estou. Não estou otimista

Lembrei do tweet, daquela noite e daquele desejo de não me sentir mais inadequado, das minhas válvulas de escape, enquanto conhecia as 31 pequenas criaturas de Fonseca. Senti um encaixe, como se tivesse encontrado uma turma. Vivi o alívio das histórias que terminavam bem, a tristeza das mal-sucedidas. Neles, torci por mim. Beijei a moça e a lona um par de vezes. Sobrevivi, como sempre.

Nota no Skook: quatro