sábado, 14 de setembro de 2019

Uma lista

Duas garrafas de Brandsen
Malbec e Cabernet
Porque uma ex ensinou que era bom
Coador descartável de café
Uma bandeja de sushi para jantar
Cinco potes de cup noodles
Pra horas de preguiça, pressa
Ou apressada preguiça 
Quatro sabonetes phebo
Porque uma antiga crush gostava
E virou hábito - não testam em animais

Se minhas compras não são a perfeita radiografia do homem solteiro de 37 anos
O que mais será?

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

As canções siamesas de Lupicínio e Cazuza

Observe que o cenário é mesmo. A porta do apartamento, o reencontro do ex-casal, iniciativa e surpresa dela - que havia ido embora e voltava -, a reação negativa dele. Há um lapso temporal de uns 20 anos: década de 1960 e de 1980. Uma cena é em Porto Alegre, outra no Rio de Janeiro. Quem conta a primeira é Lupicínio Rodrigues; a segunda, Cazuza. Essa diferença última é a mais fundamental quando se observa as letras de Judiaria e Menina Mimada e seus paralelos. Lupicínio é puro rancor; Cazuza, extremo deboche. Não poderia ser diferente. Veja como tudo começa com o sambista gaúcho: Agora você vai ouvir aquilo que merece
As coisas ficam muito boas quando a gente esquece
Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão
A judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração Duas décadas depois, Cazuza abre assim: Foi você que quis ir embora
Agora volta arrependida e chora
Olhar pedindo esmola
Baby, eu conheço a tua história Lupicínio não consegue escapar de uma última discussão sobre a tortuosa relação. Ressentido, ameaça uma agressão: Estas palavras que eu estou lhe falando
Têm uma verdade pura, nua e crua
Eu estou lhe mostrando a porta da rua
Pra que você saia sem eu lhe bater Cazuza agride com palavras, tenta diminuir a mulher, esconde sua frustração com despeito: Você é tão fácil
Menina mimada
De enfeites
Brochinhos
E queixas, queixas, queixas
Foi você mesma quem quis Na versão de Lupicínio, ele manda a mulher embora dizendo que “agora que estou melhorando, você me aparece pra me aborrecer”. Cazuza cita um terceiro personagem, talvez inventado na hora, talvez real, um cara que “já está buzinando lá embaixo, fazendo papel de palhaço”. Assim termina a história. A mesma história, dois olhares. Falta um. Quem é a garota? Por que foi, por que voltou? O que esperava? Além do rancor de um e do deboche de outro, reações possíveis a um fim de relação não solicitado, que sentimento levou aquela mulher à porta do ex? A natureza do arrependimento - se é que há arrependimento. Bem que alguma mulher poderia escrever e cantar essa história incompleta pra mim - eu que amo e vivo tanto as histórias incompletas.





segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Eu deveria cantar

Cantei cajuína pra você
Porque nem sempre 
Se chora a morte
Às vezes basta a pergunta 
A que se destina?
Também não sei
Intacta retina
De uma lágrima que não cai
Porque estou cantando
E quando canto, amo
Não choro
Nem morro

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Uma noite lilás


você pediu para eu ler em voz alta
aquele conto do Wilde
sobre o pássaro e a rosa
sobre dar o melhor de si
a quem pouco se importa
e valer a pena achei que faltaria voz
não faltou
não faltou nada

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Notas de um (breve) detox

Resolvi nas últimas férias que ia dar uma pausa nas redes sociais e whatsapp. Os motivos nem vem ao caso agora, o importante é que dos dez dias previstos, aguentei três. E que nestes três dias de detox, anotei coisas no bloco de notas. Aqui estão essas notas:

Ainda pego o celular a toda hora e lembro com a cara na tela que não há nada para ver. Na próxima, vou consultar o saldo.

Pensei em baixar o Tinder para ter o que olhar, mas as coisas melhoraram tanto sem ele. 

Em quase tudo que eu faço vejo um insight para um storie, um tweet, um post. Olhei na pia do banheiro as loções para barba e pós-barba, lado a lado, e pensei em jogar no Instagram com a legenda: duas caras.

Grande coisa, né?

Se eu não sei o que ouvir, colocar a rádio do Blur sempre resolve. Ainda bem que o Spotify não é rede social.

Eu não vou ficar falando só sobre estar auto-privado de acesso às redes, não se preocupa.

Será que vou publicar isso?

O inverno começa quando coloco minha jaqueta de couro. Termina quando eu tiro.

Se um dia eu tiver uma gata, vai se chamar Capitu.

Todo detox tem suas escapulidas.

Não acredito que não tem o Tropicália 2 no Spotify. Segunda falha deles comigo em dois dias. Antes foi o Barão Vermelho ao vivo no Rock In Rio de 1985 cheio de versões de estúdio colocadas por engano.

Grêmio continua em sua campanha para me fazer parar de assinar o Premiere.

O corpo cobra.

Quando a gente chega no Tralharia e dá bom dia, a resposta é “bom, apesar da situação do país”.

Eu tô com tanta auto-estima e confiança que ou apanho ou vou preso ou ambos

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Um fim

Vou sentir 
saudade de tudo
E dentre tudo, daquele brinco
Que por dias me fez lembrar 
Que era tudo verdade
De verdade 
E que no fim me deu a chance
De um abraço pela metade
E de te dizer que 
vou sentir 
saudade de tudo

sábado, 23 de março de 2019

36, quase 37

sou um desastre emocional
eu sei

viro a noite trocando de bares
mudando insatisfações

em busca de algo que não sei 
mas que sei muito bem

eu
um eu que não sou mais