Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Três noites

Ela tinha olhos de ressaca. Tinha, sim. Não estou citando, embora cite, Machado de Assis, Capitu, o escabau. Olhos de ressaca não têm o mesmo mistério do século XIX. Eram olhos de permanente ressaca, uma coisa meio junkie, de jovem de metrópole que passou as últimas três noites acordada, entre uma pista e outra, e os últimos três dias também, entre uma cama e outra.

O olhar era fácil de reconhecer, mas era totalmente inadequado. Não estávamos em uma metrópole e nem mesmo naquela capitalzinha em que as pessoas tentam ser mais modernas do que a cidade permite. No interior, na cinza e chuvosa cidade industrial que tenta aprender, a passos tímidos, o que significa diversão noturna, naquela noite em que aqueles nem tão rapazes de terno tocavam sucessos óbvios do rock anos 50, 60 e 70, aqueles olhos de ressaca contemporâneos não poderiam passar despercebidos. Deve ser por isso que não os esqueço desde aquela noite.

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“Quem gosta de homem é viado, mulher gosta de dinheiro”, ela disse, do nada, antes de se apresentar. Se era uma cantada, eu era o homem errado, pensei, lembrando que já tinha marcado três cervejas na comanda e que só teria dinheiro para mais três. Mesmo assim, dei conversa. Ela estava completamente bêbada, provavelmente misturou alguma coisa à bebida. Não falava coisa com coisa. Eu tinha participado do assassinato de uma garrafa de rum uma hora antes, minutos antes de entrar na balada, não estava muito longe dela.

Não é preciso se entender muito para que bocas se encontrem e façam o resto. Assim foi. No final da festa, estava tão alucinada ainda que deixou o carro por lá e me pediu carona. Quem me dava carona não se importou em deixá-la. No dia seguinte, encontrou o celular da moça.

- Aquela mulher que ficou contigo ontem é louca.
- Por quê [risos].
- Liguei para falar que estava com o celular e ela perguntou o que tinha acontecido. Disse que ela tinha ficado com meu amigo e etc. Ela disse: “mas eu não gosto de homem!”.

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Desci pra pista. Foi um ímpeto. Precisava voltar para a pista de dança e parar de perder a noite com aquele assunto. Desci as escadas e senti uma sensação canalha de ter feito a coisa certa, quando percebi que estava tocando uma daquelas músicas responsáveis por me tirar de casa nas noites de sábado. Era um Franz Ferdinand e o ano era 2004.

Encostei no primeiro canto vago de parede. Não deu tempo de parar no bar e pegar outra bebida. Precisava queria sair logo lá de cima, do terraço, me misturar aos que dançavam, me camuflar. Da parede, foquei uma menina que dançava. Cabelo roxo, uma blusa branca, olhos sacanas. Ela percebeu que era olhada, veio, ofereceu a cerveja, Skol. Antes do fim do take me out, o beijo. Era assim, naquelas noites de 2004.

Os problemas tinham ficado lá em cima, mas eu sabia que logo voltariam, desceriam e me encontrariam ali – beijando a estranha. Levei a estranha para um canto mais reservado. De lá, para casa – diante dos olhos incrédulos da pessoa que naquela noite era problema, embora tivesse sido solução em tantas outras. Era assim, naquelas noites de 2004.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Com aquela canção de Odair José na cabeça

Cansou da pista, cansou da noite. Desceu as escadas, foi ao caixa, pagou a conta e saiu. Não havia de quem se despedir. Já era dia, estava na rua Augusta e foi em direção à avenida Paulista. O mais sensato seria seguir em direção ao Centro e pegar o metrô, mas não tinha sido nada sensato naquela noite. Bêbado como estava, nem percebeu que caminho pegou. Andou um tanto mais e foi chamado por um homem que estava do outro lado da rua. Estranhou e parou para ouvir o que o homem de camisa branca, jeito de garçom e que atravessava a rua queria lhe falar.

- Você não quer conhecer a nossa casa? - pergunta e já ajuda o rapaz a atravessar a rua, antes mesmo da resposta.
- Quanto é?
- Dez reais, você ganha uma cerveja e uma caipirinha.
- Aceita cartão de débito?
- Sim, claro.
- São só dez mesmo?
- Sim. Se quiser mais, lá dentro acerta direto com as meninas...

Ele entrega o cartão ao sujeito, que passa à mulher do caixa (“tira dez reais aí”). Digita a senha, guarda o cartão e entra no bar – que não é muito grande, mas é mais arrumado do que ele esperava. Se é que esperava alguma coisa. As duas “meninas” do balcão nem esperam que ele pegue a cerveja.

- Taí o príncipe que eu disse que ia chegar - diz a que tem maior iniciativa, já chegando junto e marcando posição.

Uma risada, um sorriso. Abre a lata, bebe um gole. A segunda menina desiste e deixa o rapaz para a primeira, que já o faz abraçá-la por trás. Ele confere e percebe que a primeira é melhor mesmo, não se importa, bebe outro gole enquanto verifica a marca de biquíni na bunda da mulher.

- Você vai querer ir pro quarto, benzinho?
- Depende... quanto é?
- Cem e mais vinte do quarto.
- Ah, não tenho tanto...
Quanto você tem?
- Nem sei, pra dizer a verdade... uns noventa.
- Eu faço pra você.

Ela o acompanha até a porta, onde está a mulher do caixa. Ele entrega o cartão e a mulher diz:

- Tira noventa aí.
- Não deu - diz a caixa depois que ele digita a senha.
- Tenta oitenta - ela insiste.
- Não deu...
- Setenta!

Mais uma vez a mulher passa o cartão e o rapaz digita a senha. Ele gastou mais do que pensara, bebeu bem mais do que queria e estava a prestes a terminar a noite de um jeito que não imaginara. Se aquele cartão passasse, é claro.

- Passou – disse a mulher do caixa, para alívio de todos.

*****

(...)


*****

Enquanto desciam as escadas – ele vestido, ela nua e enrolada numa toalha branca – lembrou da cerveja e a caipirinha que lhe foram prometidas na entrada.

- Eu tenho direito a uma caipirinha ainda, né?
- Tem sim, eu pego pra você.

De toalha, ela atravessa o balcão e pede a caipirinha que parece ser feita com suco de limão em pó e vodka de garrafa plástica. Entrega pra ele e some de vez por uma porta ao lado da escada. O rapaz bebe um gole e confirma que a bebida é realmente péssima. Olha pro balcão e vê somente um garçom e a outra mulher, aquela que ele não quis. Para completar o cenário, tocam músicas do Reginaldo Rossi, na versão ao vivo de um sertanejo qualquer. Sorri, acha que é perfeito e senta na ponta de um dos sofás para beber a caipirinha e cantar baixinho:

- “Porque você é o meu pedaço de mau caminho, a medida certa para o meu carinho, a coisa mais linda que eu já conheci...”.

Sorri, bebe mais. Está contente. Gastou o que podia e duas vezes mais o que não podia. Mas se divertiu um bocado. O garçom vem perguntar se ele quer mais alguma coisa e a resposta enfática (“não! eu já fiz tudo que deveria fazer”) é acompanhada por uma gargalhada. O garçom se afasta e ele segue cantando baixinho.

- “Nesse corpo meigo e tão pequeno há uma espécie de veneno bem gostoso de provar. Como pode haver tanto desejo, nos seus olhos, nos seus beijos, no seu jeito de abraçar...”.

Percebe que a outra mulher está vindo até ele. É realmente bem pior, mais velha, com cara de nordestina sofrida de documentário. Bebe mais um gole, ela chega, pára em frente a ele e pergunta com o sotaque óbvio:

- Você tá apaixonado?
- Não – e ri – eu não me apaixono muito fácil, não...
- Ah, é que você tava cantando aí sozinho...
- Eu ia embora, mas tava tocando umas músicas que eu gosto...
- Ah, eu também adoro...
- E tenho que beber essa caipirinha horrível também.
- É horrível mesmo, não bebe esse troço, não.

Os dois riem. Ela é mais feia, mas é simpática. Devia ter certeza que dali não sairia outro programa. Continua de pé na frente do rapaz.

- Você me paga uma cerveja? É que eu to morrendo de sede...
- Beibe, eu até pagava. Juro. Mas eu só tenho o do metrô.
- Ah... não tem importância. Sabe, eu vim do nordeste faz um tempo...
- Peraí... senta aqui do meu lado para contar essa história – diz, indicando o enorme espaço vago no sofá. Ela senta e continua.- ... e lá tinha um cara que gostava muito de mim. Gostava mesmo. Mas eu fazia gato e sapato dele...
- Coitado...
- ... pois é... e quando eu fui embora, ele queria de todo jeito que eu ficasse... mas eu disse que vinha. Aí ele disse que um dia alguém ia fazer comigo o que eu tava fazendo com ele.
- Poxa, rogou uma praga!
- É... e eu acho que pegou, porque tá acontecendo igualzinho agora.
- Você está com um cara que faz gato e sapato de você?
- É... eu acho que tô pagando...
- Não, não... não pensa assim não. Toda hora tem alguém fazendo gato e sapato de alguém. Uma hora a gente faz, uma hora fazem com a gente. Mas não tem nada a ver com o outro cara, não. Olha eu... tenho certeza absoluta de que enterraram uma caveira de burro no meu jardim. Mas logo isso passa e não é culpa de ninguém.

Os dois gargalharam daquela filosofia eloqüente de bêbado. Ele bebeu mais um gole. Olhou pro lado e viu um homem chegar no balcão do bar. Ela disse:

- Olha... semana que vem vai ter um show de strip aqui. A mulher daquele cartaz ali. Vem, nem que seja só pra ver o show...
- Mas é claro que eu venho! – disse com certeza de que não viria.
- Agora eu preciso ir...
- Eu sei... vai lá!

Beijos estralados, sorrisos. Ela foi abordar o sujeito, ele largou o copo pela metade em cima da mesa. Era intragável. Levantou-se e saiu da boate. Na porta, o homem que o interceptou no início da história pergunta se ele ficara satisfeito com o serviço. Respondeu que sim de forma efusiva e foi embora. Estava de novo na rua Augusta e foi andando em direção à avenida Paulista. O mais sensato seria seguir em direção ao centro e pegar o metrô, mas ele não tinha sido nada sensato naquela noite.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Mais um post campeão de audiência




Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Nostalgia

Sentado da rede que coloquei na sala do apartamento que alugo – finalmente – sozinho, bebendo uma Stella Artois e comendo pipoca de micro-ondas (sabor tempero kitano) e lembrando tempos universitários. A formatura tem quase cinco anos, tempo suficiente para que a gente já não tenha mais tanta certeza dos detalhes e que algumas piadas internas já não façam tanta graça ou sentido.

Resquícios daquela época ainda estão nesse laptop – o mesmo que comprei logo que comecei a trabalhar, três anos atrás. Um exemplo: o trabalho de conclusão de curso, inconcluso, exatamente como estava em agosto de 2004, quando prometi à minha banca que aquilo era apenas o aperitivo do livro bombástico que lançaria meses depois.

Existem fotos também e textos dos finados e-zines Cabron e Bronson. Fuçando, acho até alguns que ficaram inéditos. Nenhum deles meu. Tudo que eu tinha daquele tempo já reciclei aqui no blog. Mas tem um texto do Vitor de Brites que resume quase tudo que eu queria dizer nessa minha madrugada saudosista regada a pipoca, stellinha e músicas aleatórias. Vamos a ele.

A tarde em que eu acordei com saudades de todos vocês

O uísque era falso, mas as risadas, verdadeiras;
Nenhum de nós acreditava no amanhã.
Se acreditássemos, talvez não tivéssemos bebido tanto;
Nossa alma não estaria tão leve, mas em compensação,
A consciência não estaria tão pesada, a cabeça tão dolorida. Os bolsos tão vazios.

Agora somos obrigados a acreditar no dia de hoje,
Porque esse dia acaba de se abater sobre nós com o peso de 1.000 hipopótamos.
Em algum ponto obscuro do subconsciente,
Todos queríamos que o mundo acabasse às 6:15 da manhã.
Exatamente o mesmo ponto obscuro que sempre nos sugeria
Parar de jogar enquanto estávamos ganhando
E que sempre ignoramos olimpicamente.

Agora devo levantar e cumprir todas as promessas feitas,
Ou pelo menos as que eu me lembro de ter feito:
Flores para mãe de meu maior desafeto,
Amar eternamente aquela ruivinha com a cicatriz no queixo,
Aprender a dançar tango.
Assino embaixo de todas as mentiras que contei,
Só exijo em troca uma garrafa gelada de água.

Depois de tudo, gostaria de saber que confiamos e acreditamos
Mesmo no mais contumaz mentiroso dentre nós
Porque fomos todos sinceros, todos generosos,
E já que não haveria um amanhã,
Então não faria mal nenhum
Inventar um pouco e aumentar outro tanto.

Nós dividimos irmãmente o pão e a bebida
(ainda que tenhamos acabado com o pão logo que anoiteceu
e a bebida tenha acabado conosco logo que amanheceu)
E eu sinto muito a falta de todos vocês
Quando acordo essa tarde de ressaca.
Sinto muito, mesmo, essa falta de todos;
Principalmente daquela ruivinha que amo tanto,
Mas não consigo lembrar do nome.

2 de junho de 2004
(é o que diz o arquivo do Word, mas tenho minhas dúvidas)

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Ele chegou, mas não tem nome ainda




Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Show bonito

Só para registrar que o show do Robertão foi bacana que só.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Casa de massas

Essa minha nova obsessão por colocar moranga na comida já chegou ao cúmulo da omelete, mas ainda não tinha chegado ao óbvio. Precisou que alguém me lembrasse, em meio a uma conversa, da saudade que tenho de comer tortei. Para quem não conhece, é tipo um ravioli com recheio de moranga, muito comum nas regiões de colonização italiana - como Vacaria (RS), onde nasci numa noite de fria de outono, há 27 anos e três dias.

Na época em que morei lá, nem comia. Dizia que não gostava, por causa - justamente - da moranga. Coisa de piá. Pois bem, minha reconciliação com o tortei aconteceu na não muito italiana Florianópolis. Perto de casa tinha uma casa de massas congeladas que aceitava o vale-refeição que o jornal oferecia. Poucas vezes pude usar a frase feita "juntar a fome e a vontade de comer" com tanta propriedade. Em uma das visitas, levei o tortei - que fiz com molho de frango desfiado. Passei a comprar com alguma freqüência e a testar com outros molhos. Especialidade da casa.

Como me mudei há cerca de um ano e meio para Joinville, deve fazer mais ou menos isso que não repito o prato. Hoje, a lembrança dele veio exatamente da pessoa que se lambuzou comigo com aquela massa e aqueles molhos. Acabei lembrando que, não muito longe do jornal e bem em frente ao bar do Fritz, um restaurante especializado em massas vende produtos congelados - entre eles, o tortei. Talvez seja hora de matar saudades do prato. E de ter para quem fazer novamente.
 
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