quarta-feira, 16 de maio de 2018

Comportar-se

Não me comporto.
Comportar é caber
A carreta comporta centenas de quilos
O navio, toneladas
Eu não comporto nem a mim mesmo
Comportar-se é caber em si
Eu não caibo em mim
Não me comporto

(Para Samanta)

sábado, 28 de abril de 2018

As 9 coisas que me tiravam o sono em 2014

Achei um antigo bilhete para mim mesmo. Uma lista escrita em uma madrugada de 2014, não sei em que momento, sobre nove coisas que me incomodavam na vida que levava. Decidi postar para marcar dar um tom de otimismo aos textos aqui do blog, porque quase tudo melhorou. O título da lista era "9 coisas que me tiram o sono". Vamos a elas, comentadas:

1) O dinheiro que me pagam por um trabalho que considero qualificado embora relapso. (melhorou bastante)

2) Um relacionamento que quanto mais me parece esgotado, mais confortável fica. (resolvido sem dor, sem mágoas, com muito carinho)

3) Paixões platônicas semanais, eventualmente quinzenais, raramente mensais. (agora elas ficam sabendo, pelo menos)

4) Envelhecer, ter saudade, sentir medo de que as coisas não possam mais ser recuperadas. (descobri que tudo que vale a pena é recuperável)

5) A distância entre o planejado e o vivido. (diminuiu muito)

6) A necessidade de reconhecimento. (melhorou muito)

7) 13 anos sem título relevante do Grêmio. (é campeão!)

8) A vontade de escrever algo consistente, duradouro, que inicie uma obra. (ainda sinto, mas incomoda menos)

9) A vontade de começar tudo de novo, longe daqui. (Florianópolis é minha casa)

sábado, 14 de abril de 2018

Eu me sinto solitário quando bebo

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo
E faz lembrar que estou só

Eu me sinto solitário quando bebo
A quarta ou quinta lata de Heineken
Na pista de dança
Com minha camiseta de banda indie
Que sinto apertada contra o corpo
E faz lembrar que estou só
Na noite que não é mais minha

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Texto perdido em um velho email

Pesquisar velhos emails é o novo remexer gavetas. Uma lembrança súbita me levou a vasculhar mensagens trocadas lá por 2009 e encontrei um texto meu que soou inédito até para mim. Lembro vagamente de quando escrevi, acho que foi alguns anos antes. Vou chutar 2007. Vai ser o título. Deu saudade de escrever, deu saudade do cenário, deu saudade até de quem recebeu o email.

2007
Ela não disse last nite
Porque os dois já sabem
Beijam como se fosse mais um gole
Uma tragada no cigarro de alguém
Só parte da festa, da noite
Beijo, fumaça, Heineken
Take me out, diz o refrão
E outra menina parece que deseja
Sair da pista, na contramão
Are you gonna be my girl?
Ela bebe, jura que sim
Anota um telefone no papel
Ele não disse last nite
Porque os dois já sabem


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Pequenas criaturas (Rubem Fonseca)

É possível que Rubem Fonseca seja o escritor que mais li, uma espécie de bola de segurança. Desde 1998, por causa de O Cobrador na lista do vestibular (pelo menos é assim que lembro e não estou querendo brigar com memórias agora), é difícil passar um ano sem ler algum Fonseca. Falhei ano passado. Fiquei tão decepcionado com O Seminarista em 2016 que acabei esquecendo Pequenas Criaturas na estante dos não lidos por mais tempo do que ele merecia.

O título é um achado. As pequenas criaturas podem ser os 31 breves contos ou os 31 protagonistas das histórias, unidos todos por um senso de inadequação. Um sentimento sempre em busca de uma válvula de escape: sexo, vingança a escolha inútil  entre uma dentadura e uma cadeira de rodas. 

Escrevi sobre inadequação há pouco tempo no Twitter, aquela rede em que a gente faz de conta que escrevemos para nós mesmos. Eram 4h da manhã e chegava a hora de ir embora sozinho do bar, já era 31 de dezembro e eu não sabia como ia virar o ano. Em uma noite que me angustiou mais do que divertiu, como tantas festas, como tantas noites, apresentei um desejo de ano novo em tons pessimistas:

Eu gostaria que em 2018 não me sentisse mais inadequado, não me sentisse mais no lugar errado. Gostaria que fizesse sentido o onde e o com quem estou. Não estou otimista

Lembrei do tweet, daquela noite e daquele desejo de não me sentir mais inadequado, das minhas válvulas de escape, enquanto conhecia as 31 pequenas criaturas de Fonseca. Senti um encaixe, como se tivesse encontrado uma turma. Vivi o alívio das histórias que terminavam bem, a tristeza das mal-sucedidas. Neles, torci por mim. Beijei a moça e a lona um par de vezes. Sobrevivi, como sempre.

Nota no Skook: quatro

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A glória e seu cortejo de horrores (Fernanda Torres)

A decadência é um passo curto de uma dança longa. Essa frase, ou verso, me veio quase aleatoriamente à cabeça em meio à pista de dança do Blues Velvet. Era uma daquelas noites de música brasileira tropicalista que incendiavam o inferninho da rua Pedro Ivo naquele verão de alguns anos atrás. Olhei pra uma velha amiga e a frase surgiu: é um poema, pensei. Anotei o verso no celular e completei um poema em casa dias depois - sem ficar satisfeito com o resultado.

A frase/verso me voltou à cabeça quando terminava de ler "A glória e seu cortejo de horrores", da Fernanda Torres. Foi o livro que escolhi como primeira leitura de 2018, influenciado pela boa lembrança de "Fim", o livro anterior da atriz/escritora. Ela intercala o apogeu e o ocaso do ator Mario Cardoso - dividido entre o sucesso como galã de novelas e a vaidade de ver-se como interprete teatral. O pano de fundo é a transformação da indústria de cultura e entretenimento dos anos 1960 até hoje. A glória e o cortejo de horrores podem ser do personagem ou do mundo que vive, no fim das contas.

De volta à pista do Blues, ao verso solto e mal-aproveitado, à sensação que o livro me passou de que a decadência está desenhada e projetada nos momentos de apogeu. A lembrança do auge realça o sabor do fracasso. A decadência total é um pequeno passo, uma queda inesperada, em um longo e contínuo processo de derrocada iniciado lá em cima. 

Não há mais festas tropicalistas no Blues. As últimas serviram apenas para lembrar as antigas, o auge. Ainda esperamos e torcemos pela reabertura do nosso canto mais querido do centro da cidade, com uma leve sensação de que algo se perdeu. Divago? Jivago? A decadência é um passo curto de uma dança longa. Danço com a estranha sensação de que algo morre aqui em mim, de que o centro da cidade se apaga, de que algo morre nos lugares em que passei as noites da última década - algo, não os lugares.

Continuo dançando, como Mario Cardoso a atuar no palco improvisado de seu ocaso. Em busca da redenção inesperada. Cheia de som e fúria, sem sentido algum - mas que vale cada centavo do ingresso que cobra.

Nota no Skoob: quatro

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Rei de Amarelo (Robert W. Chambers)

Lembro bem de seu brilho dourado sob o sol na calçada da rua Álvaro de Carvalho. O vendedor de livros tinha alguma dezena de títulos espalhados pela grama bancária daquele trecho da rua e um deles era O Rei de Amarelo. Quando percebi, estava em minhas mãos. 

O personagem que dava nome ao livro era um velho conhecido, o misterioso ser sobrenatural que desencadeou uma série de assassinatos monstruosos na primeira temporada de True Detective - referência explícita na contracapa. O mote de quatro contos de Robert W. Chambers é a existência de um livro, também chamado O Rei de Amarelo, que enlouquece quem o lê. 



Fiquei em dúvida se levava o título, já que o sobrenatural não me encanta como leitura. Mas trouxe. Algo me guiou a essa decisão, hoje penso. O Rei de Amarelo entrou e saiu da minha estante de livros prioritários ao longo de 2017. Só decidi realmente lê-lo nas últimas semanas do ano. Nos textos de apresentação, o autor e a ambientação são comparados ao Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde, escrito poucos anos antes. 

Sempre fui fascinado pela história do retrato que envelhece no lugar do modelo e essa citação me deu mais vontade de ler O Rei de Amarelo. A coincidência de que Dorian começa a enlouquecer após ler um livro de capa amarela dada por Lord Henry parece uma boa brincadeira de Chambers e existem paralelos na temática - especialmente no conto A Máscara. 

Naquela semana em que me dediquei à leitura de O Rei de Amarelo, hospedei em casa uma amiga que não via há alguns anos. Ela estava no outro quarto do apartamento, já recolhida em sua beleza dourada. Era madrugada do primeiro para o segundo dia do ano e eu não conseguia parar de ler O Rei de Amarelo. Em algum momento, passei a desconfiar daquela visita. Por que teria aparecido, o que planejava, quando iria embora. Estaria ali para me vigiar? Imaginei um cenário em que eu era mantido em cativeiro no meu próprio lar. Ou morto. Deveria me proteger, pensei? Deveria ir ao quarto ao lado para questioná-la? Seria ela parte da trama de O Rei de Amarelo, um livro que prometia ir além das páginas?

Terminei o último conto, o relógio marcava quatro horas, eu não tinha sono. Levantei, bebi água, voltei ao quarto. Peguei O Rei de Amarelo e levei para a sala, para a estante dos livros lidos. Só depois consegui dormir. Minha amiga partiu no dia seguinte. Terei mesmo recebido alguém em casa aqueles dias ou só imaginei? 

Nota no Skoob: três.