segunda-feira, 20 de julho de 2009

Segundo de abril

Escrevi o texto que segue para uma daquelas vagas de trainee do Curso Abril, em 2004. Foi a minha segunda tentativa, depois de ter feito outro em 2003. Quem disputava uma vaga como jornalista tinha que escrever um texto de sei lá quantos toques respondendo a pergunta "quem é você e porque escolheu jornalismo?". Estou resgatando o texto porque gosto e dele e até pensava que já estivesse por aqui.

Saudade daquele idealismo todo. Mas até que não mudei muito. E nem achei novos significados pro meu nome.

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Soletrar o nome é um ato praticamente diário. Upiara não se importa, gosta do nome que tem. Não se importa de repetir e ter que explicar o que significa. Sabe que o nome vem do idioma tupi-guarani e que existem muitas versões sobre o seu significado. Talvez aí esteja a primeira afinidade de Upiara com a profissão de jornalista: versões diferentes e até conflitantes para uma mesma história. Desde o berço.

O primeiro significado para o nome Upiara - aquele que a mãe do rapaz achou em um dicionário de nomes indígenas no longínquo verão de 1982 - seria "o descendente". Ele carregava o nome sem ter qualquer descendência especial. Apenas mais um gaúcho, de família materna italiana e paterna portuguesa, com algum sangue indígena para completar a mistura. Pensando bem, o jornalismo de hoje também tem uma descendência pouco expressiva: nasceu com um simples impresso com informações sobre a chegada e a saída de navios em portos.

A certeza de que Upiara significava "o descendente" durou 18 anos. Acontece o mesmo com muitas histórias mal contadas, tidas como verdades absolutas até o momento em que um repórter abelhudo, por acaso, encontra uma fonte que joga um pouco de dúvida naquela certeza toda. No caso de Upiara, a fonte era uma índia que, ao saber qual era seu nome, não perguntou o significado, disse: "é príncipe de mata". Mesmo que a mata não seja propriamente um reino, um pouco de nobreza na descendência de alguém é sempre uma boa pedida. No final das contas, um significado não anulava o outro.

Estranho mesmo, foi encontrar na internet um site especializado em nomes indígenas que dava para o inocente "descendente" um significado mais complexo. Ao ler na tela do computador que seu nome queria dizer "inimigo, adversário", Upiara não pôde conter um risinho de satisfação. Lembrou mais uma vez da profissão que escolheu, das histórias com mais versões do que verdades - mesmo as que parecem mais banais. Inclusive, o jornalismo tem muito de inimigo, de adversário. Governos autoritários e políticos desonestos estão aí para não nos deixar mentir. Ou melhor, para nos dar a satisfação de contar uma verdade oculta.

Upiara estava satisfeito em ser "inimigo, adversário", quando encontrou a quarta e - por enquanto - última hipótese para o significado de seu nome. "Aquele que luta contra o mal", informava mais um site especializado em nomes indígenas. Como sempre foi um daqueles que torcem para o bandido em filmes e novelas, ele não gostou da idéia de ter nome de super-herói. No fundo, nunca achou a menor graça nessa história de bem e de mal. Pela primeira vez, não conseguiu fazer paralelo entre seu nome e a profissão que escolheu. Não consegue ver o jornalismo como uma cruzada ou uma missão. Mesmo que a informação muita vezes possa ser uma arma contra aquilo que é nocivo à sociedade, esse não pode ser o objetivo básico do jornalista. Ele não interroga, entrevista. Não denuncia, apenas conta histórias. Não carrega bandeiras... informa.

A busca pelo real significado de seu nome talvez nunca acabe. Mas Upiara se sente tranqüilo. É assim também com a profissão que escolheu e que o diverte tanto: sempre vai existir mais uma história para ser contada, mais um dead-line para ser cumprido. Voltando ao tema que foi proposto, pode-se dizer que Upiara escolheu jornalismo como profissão no momento em que foi registrado com esse nome. Ou não. Pode-se dizer também que ele escolheu a redação como local de trabalho porque desde menino gostava ler jornal e nunca se importou de ficar com as mãos sujas de tinta. Pode-se até dizer que ele só é jornalista por falta de imaginação: não se imaginava fazendo outra coisa.

5 comentários:

  1. Adorei o texto! Parabéns!

    Abs,
    Beatriz.

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  2. agora lembrei do dia q te conheci....tu disse algo tipo..."tu não vai lembra do meu nome"...e eu não lembrei mesmo...ainda bem q existe orkut e no dia seguinte tu tava lá...auahauhauahuahau

    bj.bj.
    ateh..

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  3. quem dera ter assim tanta falta de imaginação...

    beijão!!

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  4. -simplesmente fantástico, viajei lendo teu texto.... to com os olhihos brilhando ainda. AMEI.nunca tinha lido nada desta forma, desta maneira contada sobre o nome.. ai aai.. ganhei a noite!

    beeejo

    marrih

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