domingo, 4 de outubro de 2009

Túnel do tempo

Eu não sabia onde estava e nem com quem ia. Entendi que aquele lugar deveria ser familiar, mas não era. Embora a situação e até algumas pessoas fossem. Balada, cheiro de fumaça, pouco iluminação, músicas empolgantes tocando, uma fila para comprar bebida. Pra onde fui imediatamente.

Na fila, um homem me olhou como se nos conhecêssemos. Abriu um sorriso que retribuí. Perguntei se nos conhecíamos e ele disse que não sabia.

- Desde que perdi a memória, eu olho para todas as pessoas como se conhecesse. Vai que conheço?

Podia ser ironia, mas parecia que não. Certa ingenuidade no jeito de olhar e falar denunciava a verdade. Pelo menos parecia. Tinha certeza de que não o conhecia, mas era tarde demais pra evitar a conversa na fila. Ele continuou a falar, mesmo que eu não prestasse tanta atenção assim ao papo “se beber não dirija” que começou.

O dj colocou take me out, a do Franz Ferdinand, para tocar. Era motivo suficiente para deixar a fila e a conversa para depois. Pedi licença e corri pra lá. No meio do caminho, vi aquela garota que sempre me deixou maluco na época em que tinha namorada. Não tenho mais, mas não perdi o hábito de vê-la como algo proibido – e para quem deveria olhar disfarçadamente.

Passei sem cumprimentar, mas ela me parou. Oi, tudo bem, quanto tempo e etcéteras. Beijos no rosto que não acabavam. Um, dois, três, quatro. Quatro? Depois do quinto, como se imaginasse a ex por perto em espreita – mesmo sem sentido nenhum hoje em dia – peguei a menina pelo braço para irmos um lugar mais discreto e fazer aquilo direito. Foi mútuo.

Era um das noites como as melhores de 2004, 2005, 2006, em lugares escuros e barulhentos de São Paulo e Florianópolis. Estava de mão dada com a menina, em busca de lugar mais íntimo, quando o momento foi interrompido por outro velho amigo. Ele veio dar parabéns pelo meu aniversário.

Não entendi. Pelo que lembrava, faltava meio ano para meu aniversário. Fiquei desesperado. Como assim, 28 anos hoje? Não fazia sentido. Nem a data, nem a idade, nem o meu desespero. Era como se em um instante só eu tivesse envelhecido tudo que evitei envelhecer até hoje. Os tais 28 anos estavam ali, humilhantemente expostos. Nada mais importava. A noite, take me out, as mãos dadas com aquela menina – há tanto tempo desejada.

Acordei assustado, ofegante e aliviado. Era sonho. Continuava com meus 27 anos, cinco meses e todo o tempo do mundo para evitar a vida adulta.

Um comentário:

  1. A vida começa aos 28 ou quando a gente acorda dos nossos sonhos?

    Bjs

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