segunda-feira, 28 de junho de 2010

Inocente, puro e besta

Fábio Abreu, editor de arte do A Notícia é uma das pessoas mais divertidas com quem já convivi. Pena que não estou por perto nessa Copa do Mundo, porque ele tem uma idiossincrasia que tornaria tudo mais divertido. Ele é um baiano que torce pra Argentina. E não é só na Copa. Passei dois anos e meio ouvindo ele falar mal de Ronaldinho e bem de Messi. 

No sábado, ele publicou uma crônica no AN explicando por que torce pela Argentina. Segue abaixo.

Inocente, puro e besta

A vida moderna ensina que é bom um olhar atento para tudo o que nos cerca, que devemos focar o objetivo, que mais que fazer as coisas com alegria você deve alcançar a meta. Na linguagem da esquina: se liga, malandro, e não vacila. Mas será que não é possível um pouco de diversão?

O Dunga como exemplo. Prefere focar o objetivo. O Dunga é chato. Eu quero me divertir, mas o Dunga não deixa. O Dunga quer que eu me junte à chatice dele e que eu vá de braço dado com ele e o time chato dele gritar parecendo um doido: é hexa, é hexa, é hexa, porque o hexa é a meta. Ele quer que eu acompanhe, durante um mês, o mau humor do time dele pra encontrar meia hora de alegria lá no final, quando o Lúcio beijar a taça.

Um mês de chatice por meia hora de diversão, não garantida. É o foco no objetivo, mas essa conta não bate. Isso nem é culpa do Dunga. Desde a Seleção do Lazaroni, em 1990, é assim. Vinte anos de chatice. Vinte anos...

Nesse tempo, eu fui obrigado a acreditar que com três zagueiros e dois volantes o time fica mais protegido; que o Mauro Silva era bom porque fazia bem o papel de terceiro zagueiro; que o Emerson era o rei do desarme na Europa. Nesses 20 anos, lateral virou ala, e o futebol de Pelé, Garrincha e Didi virou linguiça amarrada no cachorro. Aprendi também que o time tem de ter equilíbrio entre ataque e defesa, mesmo que equilíbrio seja sinônimo de nove jogadores na defesa e o Romário e o Bebeto se esbodegando no ataque.Transformei-me num PhD em futebol chato. Sou um torcedor chateado, mas cheio de medalhas imaginárias no peito.

Comigo não, seu Dunga. Eu prefiro ser inocente, puro e besta. Eu não quero medalha pela medalha. Eu tenho que me divertir. Então eu torço para a Argentina. Lá eu me divirto, podem acreditar.

Ou não é diversão ver o Maradona de terno devolver de calcanhar uma bola que veio carinhosa até ele, vocês viram? O Dunga devolveria a bola com a mão, que técnico não pode se dar a essas intimidades. Pode acreditar, torcedor do Brasil, foi muito divertido cada um dos 118 passes que o Verón acertou contra a Grécia, aquele jeito de jogar futebol está acabando, não perca a chance de ver isso, velho. Redondo tabelando com Maradona pra que este gritasse “estou de volta”, em 1994. E até o choro de Batistuta e Crespo pela eliminação precoce em 2002 me ensinaram mais que os dois últimos títulos do Brasil. E cada uma das bolas que o Messi chutou e não foi gol foi mais legal que o gol com as mãos do Luís Fabiano.

Olha só o que o Maradona falou do Messi, olha só: “Então, eu não tinha que dizer a Messi onde ele tinha que jogar. Ele tinha que se decidir jogar onde ele quisesse. E já era grandezinho e homenzinho para ter a atitude e dizer: ‘Esta bola é minha, rapazes. Eu o fiz neste momento’.Agora, ele toca sozinho. Só disse isso a ele”. Sei não, mas acho que o Dunga só diria isso pro Julio César...

Amigos que tenho, focados no objetivo, gritam: você ganhou o quê? Por que como é que pode eu não levar nada em troca pela minha “traição”, né? Vou dizer agora, Escada, Cabeça e Jefinho, o que ganhei torcendo pra Argentina. Não vou contar pro Didi, porque esse já se bandeou pro nosso lado, talvez saudoso dos bons tempos em que futebol servia apenas para nos divertir. Mas vou contar pro Marcão porque ele tá se coçando pra comprar uma camisa dez argentina pro Davi. Eu não ganhei nada.

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